Cinema corre nas veias de Marighella, o documentário de Isa Grinspum Ferraz

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Marighella percorre a vida e a militância no Brasil, dos anos 30 aos 60 do século passado

O filme tem previsão de estreia nesta sexta-feira, 10/8, em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. Republico aqui post original de dezembro de 2011, por ocasião da pré-estreia do filme em Salvador, integrando as comemorações pelo centenário de Carlos Marighella (5/12/2011 – 4/11/1969).

O cinema perpassa Marighella, documentário de Isa Grinspum Ferraz que contou com avant-première segunda-feira em Salvador e hoje à noite será exibido em praça pública na abertura do II CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira, cidade do Recôncavo baiano.

O filme, que persegue a trajetória do guerrilheiro baiano que nasceu em 5 de dezembro de 1911, foi considerado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira e assassinado em uma emboscada na Alameda Casa Branca, em novembro de 1969, em São Paulo, poderia ser um thriller à maneira de um Costa-Gavras.

Assista ao trailer do filme.

Mas Isa Grinspum, sobrinha do personagem, preferiu que fosse um documentário. E diz logo no início, em um momento que impulsiona a narrativa para um estado de revelação da natureza documental e sentido de resgate de suas lembranças de criança, que é uma história que poderia ter sido contada já a partir da morte do tio.

Não há uma imagem em movimento de Carlos Marighella. Poucas fotos também compõem o acervo do guerrilheiro. Grinspum assume isso como uma limitação, mas não se acanha. O resultado: 100 minutos de filme apoiados em grande parte em entrevistas com nomes como o antropólogo baiano Antônio Risério, o filho Carlos Augusto Marighella, o escritor Antonio Candido, ex-companheiros da luta armada e, sobretudo, a viúva de Marighella, Clara Charf.

Na verdade, Marighella é um importante registro documental que percorre a vida e a militância no Brasil, dos anos 30 aos 60 do século passado, com um recuo a mais no tempo para situar a origem do líder revolucionário nascido em Salvador de pai imigrante italiano (Augusto Marighella) e mãe negra (Maria Rita do Nascimento), filha de escravos africanos trazidos do Sudão.

Poderia ser um registro enfadonho, pois se trata de uma trajetória farta em material que favorece um relato denso e pesado. Mas o documentário sobre a vida do baiano poeta, amante do samba, futebol, praia, que sempre desaparecia, por força da militância política, e que às vezes retornava até mesmo travestido, no Carnaval, por vezes é impregnado de humor. Esse é um dos méritos do filme que se apresenta logo de início como um relato de restrições indisfarçáveis.

O outro mérito é a força com que nos faz viver a ideia de um cinema entranhado, arraigado à natureza, de fato, documental. De Terra em Transe (Glauber Rocha) a A Batalha de Argel (Gillo Pontecorvo), passando por Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade), o filme é coalhado de imagens que ajudam a remontar a memória política e afetiva do brasileiro e não apenas da diretora, que assume uma das vozes narrativas do filme. E isso não é pouco.