Filme de Michel Hazanavicius faz evocação da pureza do som e da imagem

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Jean Dujardin, no papel do ator George Valentin, em O Artista, segurando o cão Uggie

Há algumas sequências extraordinárias em O Artista, embora o filme de Michel Hazanavicius não seja necessariamente uma obra-prima. Uma delas refere-se ao pesadelo do personagem George Valentin – astro de Hollywood em decadência, depois do advento do cinema falado -, para quem o simples toque de um copo de uísque sobre a mesa soa como barulho perturbador.

Hazanavicius, em curtíssima sequência, cita Tempos Modernos (1936), de Charles Chaplin, em referência à recusa do autor de Luzes da Cidaden (1931) a se dobrar ao cinema falado, e evoca Silent Movie – A Última Loucura de Mel Brooks, filme mudo que o diretor de O Jovem Frankenstein realizou em 1976.

Chaplin de início rejeitou a incorporação de fala nos seus filmes, mas não entrou em decadência como o Valentin de O Artista. Fez Luzes da Cidade, uma obra-prima, e somente anos depois, em Tempos Modernos, adicionou algum diálogo. Mel Brooks, com notável senso de paródia nos anos 1970, reuniu elenco estelar em torno da ideia de fazer um filme mudo dentro de um filme mudo.

No papel de um diretor de cinema, ele convenceu nomes como Liza Minelli, Paul Newman, Burt Reynolds, James Caan e sua mulher, Anne Bancroft, a fazer participações especiais em uma comédia maluca para tentar salvar um estúdio de cinema da bancarrota.

Onde estava o filme, onde estava a realização do filme. Era um exercício metalinguístico sui generis, mais curioso ainda porque um dos raros momentos de fala cabia a um mímico, o francês Marcel Marceau.

Como se vê, O Artista, que concorre a 10 Oscar, não é pouca coisa. O filme se coloca agora em um momento de muita invencionice, que inclui técnicas mirabolantes como o 3D, que ainda não disse a que retornou, para fazer uma evocação da pureza do som e da imagem.

E isso tem a ver com a presença, no filme, do cahorrinho Uggie, que acaba de receber a ‘coleira de ouro’, em reconhecimento à “excelência canina em Hollywood”. Um feito e tanto. Uggie é provido de sensibilidade. Me lembra o Scraps de Vida de Cachorro, entre tantos dos filmes de Chaplin e tantos cães da vida real e do cinema.

Em particular, o esperto animalzinho de Aurora, obra-prima de F. W. Murnau, que arrebenta a corrente, salta uma cerca e se atira na água parar ir ao encontro do casal que acabara de sair em um bote, em ato premonitório das intenções assassinas do marido.

Jean Dujardin, em grande momento, concentra sentimentos opostos no papel de George Valentin, evocando, a um só tempo, a aura mitológica do mais popular ator da época, Rudolph Valentino, e John Gilbert, que entrou em decadência com o advento do cinema sonoro em Hollywood e morreu, em 1936, no ostracismo, depois de brigas com Louis B. Mayer, chefe da Metro-Goldwyn-Mayer.

Valentin se recusa ao cinema falado, desce na vida de elevador, enquanto que a atriz em início de carreira que ele ajudou, Peppy Miller (interpretada por Bérénice Bejo), sobe de foguete. Aí mais uma referência, desta vez a Nasce Uma Estrela, que teve três versões no cinema, a mais notável, de 1954, em que George Cukor dirige Judy Garland e James Mason no papel de uma cantora em ascensão e um ator em declínio na roleta do sucesso.

Há outras referências: Cantando na Chuva (1952), admirável musical centrado no frenesi da mudança do cinema mudo para o falado, e Crepúsculo dos Deuses, 1950, obra-prima de Billy Wilder, cujo período se cristaliza e se alonga na lenta agonia de Norma Desmond, a atriz louca interpretada por Gloria Swanson que se recusa a perder a glória.

Há que se notar: Desmond é paparicada pelo mordomo interpretado por Erich von Stroheim – nada menos que seu diretor nos grandes tempos do cinema mudo. Não é mera coincidência, portanto, em O Artista, a presença do criado de George Valentim que se recusa a abandonar o patrão mesmo quando este já não tem como lhe pagar o salário.

Assim como o cão fiel Uggie, ele será exemplar. Ambos protagonistas em sequências determinantes do filme de Micheln Hazanavicius.

Muito mais do que emular as comedias românticas hollywoodianas, aportando em momento de esplendor e decadência, O Artista homenageia o musical norte-americano. E aí Michel Hazanavicius segue uma tradição francesa. É por isso que o filme se resolve, com George Valentin ao lado de Peppy Miller, no palco.