O Abraço da Serpente é ensaio sobre o homem confrontado diante do desconhecido

 

pontocedecinema

Theodor Koch-Grünberg (Jan Bijvoe) e Nilbo Torres (Karamakete) em O Abraço da Serpente Foto: Divulgação

Ciro Guerra toma como ponto de partida fatos reais para fazer de O Abraço da Serpente, primeira produção colombiana a concorrer ao Oscar, um filme de referências históricas em torno do conhecimento, da exploração e da colonização na América Latina, mas também uma obra de culto à natureza que põe em confronto dois mundos.

Não apenas o mundo civilizado e o selvagem, mas o real e o místico, que também correm com o rio e suas margens em jornadas independentes, mas interligadas (no coração da selva amazônica): a do etnologista alemão Theodor Koch-Grünberg (Jan Bijvoe) e a do etnobotânico norte-americano Richard Evans (Brionne Davis), guiados pelo xamã Karamakete.

Em 1940, Evans  parte em busca da yakruna, uma planta sagrada, refazendo a trajetória de  Koch-Grünberg, que percorre a região em 1909, doente, em busca dos poderes curativos da flor. Ambos levados por Karamakete, vivido em dois tempos por Nilbo Torres, o ainda jovem xamã que se destaca pela presença imponente, e Antonio Bolivar, que associou à sua altivez a sabedoria acumulada com os anos de reclusão voluntária na selva.

As duas narrativas surgem em tempos diferentes, mas soam como uma única história. Revelam-se como um épico sobre a ação em torno das culturas indígenas e impõem-se como uma necessidade incontornável de avaliar o mistério e determinar o valor das coisas insondáveis em meio à exploração, que inclui a ação missionária.

Filmado em preto e branco, O Abraço da Serpente tenta apreender a existência em seus variados instantes, integrando-a ao infinito, donde a referência a 2001 – Uma Odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, único momento em cor do filme, que encontra no espaço místico, interior, um caminho para a definição do homem para além do universo que habita.

O horror detectado por Conrad em O Coração das Trevas (1902), adaptado por Coppola (Apocalipse Now -1979), é o mesmo encontrado por Ciro Guerra. As imagens revelam-se para além do registro dos acontecimentos narrados. Mas fortes e compulsivas, no sentido de determinar a beleza, a magia, o inusitado e a importância dos fatos.

O Abraço da Serpente situa-se entre o delírio e a realidade, referindo-se diretamente ao martírio de  Koch-Grünberg. Não à toa  encontra-se, ali, uma espécie de cosmogonia da imagem, que tenta apreender em seu espaço-tempo o princípio de uma natureza infindável.

Nisso, Guerra pode encontrar como referências desde o Terrence Malick  de A Árvores da Vida (2011), em suas ingerência no sentido de abordar o homem e sua perspectiva diante do universo intocável, ao transe mágico e religioso da forma como se manifestou no Hector Babenco de Brincando nos Campos do Senhor (1991).

Mas é no Werner Herzog, sobretudo de Aguirre – A Cólera dos Deuses (1971) e Fitzcarraldo (1981), ambos ambientados na selva amazônica, assim como o filme de Babenco, que o cineasta se debruça para fazer um ensaio desesperado sobre o homem confrontado diante do desconhecido, da ameaça.