Novo Batman coroa trilogia calcada na luta do homem para fugir do medo e da escuridão, seja lá com que máscara for

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Nolan doma o excesso e apresenta um filme de pulsão forte: Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

Em um momento da trilogia Batman, um personagem diz a outro algo como: “Você se acha melhor do que realmente é”. Não lembro bem quando e em qual parte da obra de Christopher Nolan, que tem o último momento chegando estrepitosamente às telas agora.

Pode ser Batman que fala para Bane ou para o Curinga, ou vice-versa. Mas, seguramente, não dá para deixar de recorrer ao lugar-comum: a frase cairia muito bem para ilustrar o espírito criativo de Christopher Nolan.

Foi preciso o cineasta britânico alçar o mais alto grau de megalomania com A Origem (2010), depois de Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008), para chegar a algo realmente digno e saboroso como Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

O filme é a principal estreia da semana e, em certo sentido, do ano. Apresenta de forma mais significativa a aura blockbuster pop-cabeça perseguida pela trilogia iniciada em 2005 com Batman Begins.

Batman Begins era um filme sério, solar e ao mesmo tempo sombrio, em que Nolan, ao introduzir a razão da angústia do homem-morcego, fazia muito esforço para se mostrar realmente significativo.

Começou alongando-se em explicações e com uma certa fragilidade ao manipular determinados elementos simbólicos do trauma do pequeno Bruce Wayne, que, até chegar a Batman, teve que cortar um dobrado na Liga das Sombras de Henri Ducard/ Ra’s Al Ghul.

Depois encontrou no Curinga de Reth Ledger a figura perfeita para orquestrar a desordem, que se tornou determinante na própria estrutura do filme, tamanho era o número de tramas e subtramas.

Em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, apagadas as chamas da disfunção narrativa de A Origem – também resultando, em certo sentido, em um exercício de tentativa de manipulação do caos -, Nolan doma o espírito excessivo para nos apresentar um filme de pulsão forte e verdadeiro tônus cinematográfico.

Não que o novo Batman seja perfeito. Pelo contrário. As tramas ainda se desfolham como uma boneca russa. Há irregularidades indisfarçáveis, como a superficialidade com que é traçado o perfil de personalidade tão significativa quanto a da milionária Miranda Tate, interpretada por Marion Cotillard, que apenas encontra seu real sentido ao apagar das luzes da trama.

Mas há ali também elementos de filme de aventura dos anos 60, de thriller político dos 60/70, de ficção científica com sabor de Metropolis e Mad Max e um drama social intenso, agora sedimentado, com articulação de poder (desde o primeiro filme) para destruir uma cidade a partir do fosso, dos canos, do esgotamento, resultando em uma luta de corpo que nos remete a guerrilha urbana.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge não alivia um só segundo de 165 minutos de filme. Quer mais? É o melhor momento de uma trilogia fundamentalmente calcada no medo e na escuridão, e na luta inapelável do homem para fugir dessa condição, usando seja lá que máscara for.

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