Negros não foram indicados, mas marcaram presença no palco e na plateia da cerimônia do Oscar

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Iñàrritu e Leonardo DiCaprio com as estatuetas por O Regresso. Spotlight ganhou Melhor Filme Foto: Divulgação

A premiação de Mark Rylance como Melhor Ator Coadjuvente, por Ponte dos Espiões, em vez de Sylvester Stallone em Creed: Nascido Para Lutar, foi a maior surpresa da noite de entrega do Oscar, que teve uma cerimônia sem tempestades, contrariando as expectativa de manifestações mais contundentes e boicote por conta da não-indicação de atores negros este ano.

Pouco conhecido fora dos palcos britânicos, Rylance tem uma atuação brilhante como o agente secreto soviético capturado nos Estados Unidos na trama de espionagem anticlimática de Steven Spielberg.  Stallone viu a estatueta escapar-lhe praticamente das mãos. Ele era uma das certezas de premiação mais alarmadas antes da cerimônia, assim como Leonardo DiCaprio –  ovacionado ao ser anunciado como Melhor Ator por O Regresso.

No mais, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood novamente distribuiu estatuetas com sabedoria  salomônica. Um pouquinho aqui, outro ali, apenas Mad Max: Estrada da Fúria, também apontado como um dos favoritos a Melhor Filme,  concentrou um número variado de premiações: seis. Mesmo assim, todas em categorias  técnicas: mixagem de som, edição de som, montagem, cabelo e maquiagem, design de produção e figurino.

Os latino-americanos, representados de forma mais significativa pelos mexicanos  Alejandro G. Iñárritu e Emmanuel Lubezki, além do brasileiro Alê Abreu, de O Menino e o Mundo, e o colombiano Ciro Guerra, de O Abraço da Serpente, voltaram a ganhar visibilidade. Mesmo com Alê perdendo Melhor Animação para Pete Docter (Divertida Mente) e Guerra Melhor Filme Estrangeiro para László Nemes (O Filho de Saul), ambos vencedores também apontados como certezas no Oscar.

Emmanuel Lubezki cravou um tento na história da premiação: foi o primeiro a receber o Oscar de Melhor Fotografia pela terceira vez seguida. Ele venceu em 2014 com Gravidade, do também mexicano Alfonso Cuarón, e no ano passado com Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Iñàrritu, que,  em sequência a 2015, ficou com o prêmio de Melhor Diretor com O Regresso.

Leonardo DiCaprio reafirmou sua posição de esteio dessa superprodução hollywoodiana com um discurso em alerta para a ameaça do aquecimento global.

Spotlight: Segredos Revelados como Melhor Filme não chegou a ser uma surpresa. As bolsas de apostas indicavam a possibilidade de vitória.  O filme, sobre a investigação jornalística em torno dos padres pedófilos norte-americanos, fez valer o peso dos temas necessários, com o prêmio principal e o de Melhor Roteiro Original.

Dirigido por Thomas McCarthy,  é um relato bem desenvolvido com narrativa sóbria, que não se sobrepõe à relevância do objeto sobre o qual se debruça. Apresenta um elenco notável ao evocar um hoje clássico do cinema hollywoodiano dos anos 1970: Todos os Homens do Presidente (76), de  Alan J. Pakula, sobre o escândalo Watergate, que levou à renúncia do então presidente dos EUA, Richard Nixon.

O Oscar de Melhor Atriz para Brie Larson, por O Quarto de Jack, também era esperado, e o de Trilha Sonora para Ennio Morricone, por Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, assim como o de Documentário para Amy, de Asif Kapadia, sobre a trajetória da cantora Amy Winehouse, morta em julho de 2011 em Londres.

Surpresa mesmo foi Ex Machina ganhar Efeitos Visuais para Mad Max, O Regresso, Perdido em Marte  e Star Wars e Writing’s On The Wall, de 007 Contra Spectre,  vencer Til It Happens To You como Melhor Canção, do documentário The Hunting Ground.

A questão da falta de negros entre os concorrentes marcou a cerimônia. Mas os artistas afrodescendentes compareceram em peso: Morgan Freeman, Louis Gosset Jr., Whoopi Goldberg, Michael B. Jordan, Cheryl Boone Isaacs (presidente da Academia)…

Pressionado para tomar posição em relação ao boicote, dias antes da festa, o comediante Chris Rock, apresentador  oficial, saiu em defesa da diversidade, mas não deixou de impregnar suas interferências de acidez e sarcasmo. Evocou os artistas negros dos anos 1950 e 1960 e lembrou a violência da luta pela conquista dos direitos civis nos Estados Unidos.

Os inúmeros casos de violência sexual nas universidades dos EUA, abordados em The Hunting Ground,  e os direitos da mulher e dos LGBTs ecoaram em discursos e manifestações em toda a festa.  Sem um grande filme entre os concorrentes principais, o Oscar 2016 manteve a tradição: foi uma cerimônia longa e cansativa.