Múltiplos Guidos | Criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia é tema de série em episódios

pontocedecinema.blog.br

Guido Araújo (no centro) com Nelson Pereira dos Santos e equipe de filmagem Foto: Divulgação

Cineasta dos mais cultuados não apenas por sua militância documental – autor da Trilogia do Recôncavo (Maragogipinho, Feira da Banana e A Morte das Velas do Recôncavo) –,  Guido Araújo  recebe, aos 83 anos de idade, uma das mais importantes homenagens da carreira. Às 20 horas desta terça-feira (25.04), o compositor e cineasta Jorge Alfredo lança oficialmente, no Espaço Itaú de Cinema Glauber Rocha, a série para TV em cinco episódios, com 26 minutos cada um, O Senhor das Jornadas.

O programa acompanha a trajetória do cineasta, idealizador e criador da Jornada Internacional de Cinema da Bahia,  ex-professor de cinema da Ufba, além de formador de uma geração de cineastas baianos. O Senhor das Jornadas é fruto de um edital em cooperação da Ancine (Agência Nacional de Cinema) com o Irdeb (Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia) e será exibido também pela TVE-Bahia a partir do próximo dia 4 de junho, às 19 horas.

Guido Araújo, que já foi homenageado por Jorge Alfredo com uma mostra e o lançamento de um catálogo e um DVD com sete de seus filmes, em O Senhor das Jornadas é acompanhado desde os primeiros momentos na cidade natal, Castro Alves, no interior da Bahia.

A chegada a Salvador, pouco antes de Walter da Silveira fundar o Clube de Cinema da Bahia em 1950, a colaboração com Nelson Pereira dos Santos, no Rio de Janeiro, em dois marcos do cinema brasileiro – Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957) – e a ida Tchecoslováquia, onde permaneceu até 1967, marcam os primeiros momentos desta singela homenagem a Guido.

Agitador cultural
Com o retorno, o cineasta sinalizou o início de sua trajetória de agitador cultural formador de uma geração. Chamado pela Ufba, em 1968, criou o Grupo Experimental de Cinema – GEC/Curso Livre de Cinema e a Jornada, em 1972, que ganhou fama e múltiplos nomes e espaços, a partir do seu quartel-general, o Icba/ Instituto Goethe, no Corredor da Vitória.

De Jornada Baiana de Curta-metragem, passou a nordestina, brasileira e então Jornada Internacional de Cinema da Bahia, reunindo anualmente alguns dos principais nomes do cinema nacional e internacional, como Paulo Emílio Sales Gomes, Rudá de Andrade, Thomaz Farkas, Paul Leduc, Miguel Littin e Joris Ivens.

“A gente brincava que esse núcleo era o Politburo: Guido, Farkas, Paulo Emílio, Rudá e Cosme (Alves Netto)”, afirma a jornalista e crítica de cinema Maria do Rosário Caetano logo no início da série..

“Apesar do formato – uma série para TV –, decidi fazer o lançamento na tela grande por todas essas memórias afetivas e pelo prazer de mostrar a série de uma só vez e com uma projeção à altura do nosso querido Guido Araújo”, afirma Jorge Alfredo, diretor de Samba Riachão (2001).

Nomes como Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, Silvio Tendler, Octávio Bezerra, Emmanuel Cavalcante,  Edgard Navarro, Pola Ribeiro, Fernando Belens, José Araripe Jr. e Roque Araújo somam-se a um sem-número de entrevistados que fazem tributo ao cineasta.

Independente
Roque Araújo diz que Guido foi um provocador da política e da cultura. Para Roberto Duarte, agitador de uma geração. “Foi o festival mais importante para o cinema brasileiro”, diz Nelson Pereira dos Santos. “Poucos tiveram as características da Jornada. (Guido) procurava sempre um cinema mais independente, mais autoral, um festival que refletisse as questões de uma repressão político-militar”, afirma Octávio Bezerra.

“Seria muito bom para o futuro do cinema brasileiro que voltasse a acontece todos os anos”, diz Orlando Senna, que faz coro com Silvio Tendler, ao lembrar que a Jornada sobreviveu aos piores anos da ditadura: “Acontecimento progressista, desaparece exatamente em um dos primeiros (senão o primeiro) governos progressistas da Bahia”.

De caráter profético e anunciador, a Jornada era um verdadeiro movimento marcado por acontecimentos inesperados. Encontra agora um tom melancólico em outras palavras de Senna: “O interessante é que quando chega a era digital, em que os suportes não têm importância, a Jornada deixa de existir”.

O documentário de Jorge Alfredo tem o mérito de ser um tributo à trajetória do mestre. E como tributo é um trabalho em que se destacam o carinho e o afeto por Guido Araújo.

O SENHOR DAS JORNADAS
DE JORGE ALFREDO
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA GLAUBER ROCHA
TERÇA-FEIRA (25.04), 20H