Morre Kaneto Shindo, diretor de Onibaba, A Ilha Nua e Filhos de Hiroshima

Kaneto Shindo - pontocedecinema.blog.br

Kaneto Shindo, o cineasta japonês que morreu aos 100 anos, tinha a obra marcada pelo realismo fantástico

Resgato aqui comentário que publiquei em abril passado sobre Onibaba, A Mulher Demônio, um dos principais filmes de Kaneto Shindo, o cineasta japonês que morreu aos 100 anos nesta terça-feira em Tóquio. Shindo estreou na direção em 1951, com A História de Uma Esposa Amada, mas foi com o terceiro filme, Filhos de Hiroshima, realizado em 1952, que passou a ser conhecido no Ocidente.

Em 1960, fez A Ilha Nua, um poema visual sem palavras, sobre uma família que vive à beira-mar. Dirigiu também O Gato Preto, As Cínicas, dentre outros filmes. Em 2002 foi condecorado com a Ordem Imperial da Cultura do Japão. Seu último filme, Ichimai no Hagaki, ganhou o prêmio especial do Festival de Cinema de Tóquio em 2010.

Onibaba, A Mulher Demônio - pontocedecinema.blopg.br

Cena de Onibaba, de 1965, um dos principais filmes do diretor premiado no Festival de Tóquio em 2010

Da série Filmes da Minha Vida, A Bruxa Negra ou Onibaba, A Mulher Demônio (1965), de Kaneto Shindo, obra exemplar e absolutamente aterradora do grande cineasta japonês que completou 100 anos em abril. Vi o filme, raro e original, no início dos anos 1980, quando a Sala Walter da Silveira, ainda não oficializada com este nome, era conhecida popularmente como o cinema dos Barris.

Filme profundamente impactante, Onibaba concentra sua ação virulenta no período Sengoku, uma das fases mais críticas da história do Japão, um tempo de guerras civis, entre os séculos XV e XVII, em que a mulher e a mãe de um homem que foi para a guerra habitam um casebre à beira de um rio, dentro de um canavial.

Veja o trailer de Onibaba.

Elas sobrevivem do que conseguem vender depois de matar e roubar soldados desavisados que chegam àquelas bandas. Até que um vizinho retorna da guerra, dando conta da morte do marido e filho das mulheres. A mais jovem torna-se então amante do homem, o que provoca a ira da sogra, que inventa um plano diabólico para separá-los.

Um filme de terror, à primeira vista, Onibaba é na verdade uma farsa que se revela brilhante ao se fundar não apenas na sorte das duas mulheres entregues à desventura, mas no medo da velha, tomada por sentimentos mesquinhos, que a leva ao extremo no sentido de livrar-se da possibilidade do abandono, da solidão e da morte.

Com Onibaba, Shindo inscreve-se no panteão dos grandes do Japão, sendo este um filme seminal, verdadeiro oráculo de títulos como O Império dos Sentidos (1976) e O Império da Paixão (1978), ambos de Nagisa Oshima, no que apresentam de sensualidade e violência associadas a conteúdo mórbido. E mesmo O Sorgo Vermelho (1987), o filme de estreia do chinês Zhang Yimou, no qual o bucolismo se preenche de uma carga explosiva de cores vivas em prenúncio de tragédia.

Kaneto Shindo nunca teve a visibilidade de um Akira Kurosawa, um Kenji Mizoguchi, um Yasujiro Ozu, a santíssima trindade do cinema japonês, mas continua sendo um cineasta e tanto, com quase 50 filmes no curriculo de diretor e centenas de roteiros escritos para o cinema. Revelado nos anos 1950, notabilizou-se, no entanto, com A Ilha Nua, um filme autobiográfico realizado em 1960 e considerado por muitos como sua obra-prima.

Veja trechos de A Ilha Nua.