Miguel Littin faz manifesto humanista em Dawson

Dawson Ilha 10 - pontocedecinema.blog.br

Pablo Krög (José Tohá) e Luis Dubó (Sargento Figueroa) em Dawson Ilha 10

Como Jean Renoir, Miguel Littin poderia dizer: “Porque sou pacifista, realizei Dawson Ilha 10”. Em cartaz desde a última sexta-feira em Salvador, Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro, o filme do mais importante cineasta chileno da atualidade é um manifesto humanista sobre o período imediatamente posterior ao golpe militar do general Augusto Pinochet, em 11 de setembro de 1973, contra o governo do presidente Salvador Allende, eleito democraticamente em 1970, que morreu durante o bombardeio do Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile.

A frase de Jean Renoir foi dita a propósito de A Grande Ilusão, uma das obras-primas do cineasta francês, realizada em 1937, que surge como referência quando se fala em qualquer filme sobre grandes conflitos humanos. Renoir, ali, trata de relações cordiais entre franceses e alemães mesmo em um campo de prisioneiros na Alemanha da Primeira Guerra Mundial. Em atuação extraordinária, o ator Erich von Stroheim interpreta o capitão Rauffenstein, comandante da fortaleza, que acredita na igualdade e na fraternidade mesmo em tempos de guerra. Um momento vigoroso é quando os soldados franceses cantam La Marseillaise, o hino nacional da França, em pleno front alemão.

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Bertrand Duarte no papel do arquiteto Miguel Lawner

Em Dawson Ilha 10, que conta com um braço de produção baiana e a presença dos atores Bertrand Duarte e Caco Monteiro em papeis de destaque, Littin trata ficcionalmente o momento grave vivido pelos membros do alto escalão do governo de Allende, que foram levados como prisioneiros para a gelada e inóspita ilha de Dawson, no extremo sul do país, e submetidos a maus tratos. Entre eles, Sergio Bitar, interpretado por Benjamín Vincuña, ministro de Minas de Allende, que escreveu o livro no qual o filme se baseia. Do outro lado, o coronel Lieutenant Labarca, interpretado por Cristián de La Fuente, o oficial do exército encarregado do grupo dos presos políticos levados à ilha.

Lírico, uma característica do cinema de Littin, Dawson Ilha 10, narrado em primeira pessoa por Bitar – intercalando imagens documentaias e algumas recriações dos fatos ocorridos no Palácio de La Moneda com a história dos prisioneiros no campo de concentração – surge como uma canção de exílio em que sua atmosfera será exaustivamente delimitada, para o bem, pela trilha de Juan Cristóbal Meza. O que Littin quer mostrar é que mesmo em terreno litigioso, em campo de aspereza e escárnio, pode vingar um fiapo de convivência e fraternidade, como no filme de Renoir.

Um dos momentos reveladores nesse sentido é quando o sargento Figueroa, interpretado por Luis Dubó, manda que o arquiteto Miguel Lawner (Bertrand Duarte) pegue sob uma árvore o presente enviado por sua mulher: um pote de doce e um pedaço generoso de pão que dividem sentados na escada da igreja projetada e construída pelo diretor da Corporação de Melhoramento Urbano do governo Allende. Mais do que isso, o filme também se revela em momentos ao mesmo tempo de humor e tensão, no episódio da granada caída ao chão que é devolvida por um dos prisioneiros ao Capitão Salazar (Alejandro Goic) que os questionava em tom ameaçador.

Mas Littin vai além de uma veia poética e humanística em Dawson Isla 10 para fazer uma denúncia mesmo dos tempos mórbidos, difíceis que se seguiram ao golpe deflagrador de uma das ditaduras mais sangrentas que a América Latina presenciou. E recria o episódio da morte de Salvador Allende como assassinato e não suicídio. Aliás, Dawson Ilha 10, anuncia Littin, é o primeiro momento de uma trilogia que se completará com a visão do Chile de hoje. Agora, ele prepara a segunda parte, uma ficção que retrata o dia em que Allende permaneceu no La Moneda, das 7 da manhã às 2 da tarde, resistindo às tropas de Pinochet. O cineasta sustenta que o ex-presidente do Chile foi assassinado, mesmo depois da exumação do corpo pedida pela filha, Isabel, que confirmou a versão do suicídio.