Max von Sydow domina Tão Forte e Tão Perto

Tão Forte e Tão Perto - pontocedecinema.blog.br

O bergmaniano Max von Sydow (com Oskar - Thomas Horn), soberbo no filme de Stephen Daldry

Confesso que não sou fã de Stephen Daldry. Acho As Horas um pastiche que mistura histórias de mulheres de diferentes tempos do século 20 com a vida pessoal e o romance central de Virginia Woolf - Mrs. Dalloway. Logo Mrs. Dalloway ! Respeito muito O Leitor, mas admiro Billy Elliot, aquele filme sobre o menino que ergue uma muralha ao enfrentar o pai e preferir o balé ao boxe.

Por alguns momentos, durante a exibição de Tão Forte e Tão Perto, pensei estar diante de um grande filme. Aqueles minutos são centrais, definidores e estão mesmo no meio do filme de Daldry, adaptado do livro Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran, que concorre ao Oscar na categoria principal e de ator coadjuvante.

São os momentos em que aparece o grande Max von Sydow, o tal ator coadjuvante, no papel de um velho que não fala, chamado de O Inquilino, que vai acompanhar o menino Oskar (Thomas Horn) em parte de sua trajetória por Nova York em busca do significado de uma chave que encontra no armário de seu pai (Tom Hanks), morto no 11 de Setembro. Porque é do Inquilino que Oskar se valerá como amparo para sua indignada e calada revolta pela perda do pai que ele e a mãe (Sandra Bullock) tanto amavam.

Oskar está envolvido em um mundo próprio, fechado em círculo (só, como se esperasse findar os minutos que demorariam para chegar aos humanos os efeitos da explosão do Sol). E guardado no silêncio em relação aos seus, que ama, sobretudo a mãe, com quem não consegue o diálogo, sendo então guiado pela representação máxima da figura que desenha como o pai, o próprio Inquilino, que tem como avô.

Mas ele mesmo, o personagem de Sydow, não conseguiu romper um círculo, fechado que está em sua vida de mudez absoluta, depois de perder os pais, quando criança, vítimas da explosão de uma bomba.

Não por coincidência, a referência mais emblemática de Tão Forte e Tão Perto é o Oskar de O Tambor (1979) – filme de Volker Schlöndorff baseado em Günter Grass -, personagem que resolve parar de crescer aos três anos de idade e usar o batuque ensurdecedor do seu tambor e o grito de estilhaçar cristais como expressões de revolta contra o nazismo.

O Oskar de Daldry, que não larga das mãos um pequeno pandeiro sem couro que brande sem parar, tem também seus artifícios para expressar a revolta pessoal e social em relação ao 11 de setembro. Mas Stephen Daldry claudica nas duas grandes abas (inicial e final) e o filme, fora a relação bem amarrada Oskar/O Inquilino, torna-se enfadonho.

O que vale, como expressão do cinema fundamental, acontece ali, na presença de Max von Sydow. Ator bergmaniano por excelência, pois um dos representantes, na Terra, do poeta do silêncio e da incomunicabilidade, Ingmar Bergman, Von Sydow livra um pouco Tão Forte e Tão Perto de uma interminável cantiga monótona sobre o 11 de setembro.