Match Point, o tênis, os fantasmas e um círculo de arrependimento

Match Point - pontocedecinema.blog.br

O tenista Chris e a atriz Nora em cena de Match Point

Escrevi esse comentário a seguir motivado por três filmes que revi, no final de semana, e que sempre me interessaram: Match Point (2005), de Woody Allen, Pacto Sinistro (1951), de Alfred Hitchcock, e Blow Up (1966), de Michelangelo Antonioni. Os três apresentam algo em comum, o tênis. Bem, penso primeiro em Match Point. Pacto Sinistro e Blow Up vêm depois.

Dizem que Match Point (2006), o primeiro dos quatro filmes que Woody Allen fez na Inglaterra, revela um crime sem castigo. Não acredito. O momento final, um plano fixo no rosto de Chris Wilcott (Jonathan Rhys Meyers), o jovem que prescinde de uma carreira nas quadras porque pensa que jamais será um tenista brilhante e torna-se um instrutor de tênis, revela o contrário. Ele está ali, depois de se enfronhar no leito da filha de uma família aristocrática inglesa, trair a mulher com a ex-noiva do cunhado e cometer pelo menos dois crimes brutais. Mas conviverá, para sempre, com os grilhões e os fantasmas.

Este último plano nos remete imediatamente a um outro, o de Roy (Josh Broslin), escritor fracassado de Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2009), quarto filme dirigido por Allen em Londres, que se afasta imediatamente dos companheiros no hospital, em sentimento de culpa – assim como Chris se distancia da esposa e da família naquele momento final –, ao descobrir que o amigo de quem roubou os originais do livro de sucesso não morreu em um acidente de carro. Pelo contrário, dá sinais de vida e de que retornará em breve, não como fantasma, para arrancar-lhe o prestígio e as vísceras.

DOSTOIEVSKI – Gostei muito de Match Point quando o vi no cinema. Aliás, ao contrário de muitos, sem medo de cair no lugar-comum, continuo achando Woody Allen genial. Seja ele o Allen ilusionista e francamente debochado de Scoop – O Grande Furo (2006) – segundo filme do diretor norte-americano na Inglarerra – e tantos outros títulos, como o Allen rigoroso do seu terceiro filme inglês, O Sonho de Cassandra (2007), e mesmo de Crimes e Pecados (1989), que é quando o cineasta começa a mostrar mais incisivamente uma influência de Dostoievski.

Crime e Castigo, com os tormentos que afligem Raskolnikov, o estudante que mata e pensa que não precisará de sacrifício e remissão, já que, para ele, suas vítimas são desprezíveis, é o romance do escritor russo que agora tira o sono e compõe os sonhos de Woody Allen, que nos povoa sempre com suas citações ao sueco Ingmar Bergman, ao italiano Federico Fellini e ao cinema de gênero hollywoodiano, pelo menos desde Sonhos de um Sedutor (que é dirigido por Herbert Ross, mas conta com roteiro e é baseado em uma peça de Allen), referente ao film noir americano, passando por Interiores (Bergman) e A Rosa Púrpuira do Cairo e Neblina e Sombras (Fellini), até encontrar, depois de tanto mau humor no decorrer do filme, o drama edificante de Frank Capra no final de Tudo Pode Dar Certo (2008).

Aliás, foi o prólogo de Match Point (vale a pena rever o sequência, aqui, apesar de dublada em italiano) que me motivou a escrever esse comentário sobre o filme que considero um dos melhores do cineasta-norte americano. E a pensar em Pacto Sinistro e Blow Up. Logo no início, claro, depois dos créditos, como imagem, apenas uma rede de tênis, a bola indo de um lado a outro e a voz em off de Chris Wilcott: “O homem que disser ‘prefiro ser sortudo do que bom’ entendeu bem a vida. As pessoas têm medo de admitir que grande parte da vida depende da sorte. É assustador pensar que tantas coisas estão fora do nosso controle. Há momentos em um jogo que a bola bate na parte superior da rede e, por um milésimo de segundo, pode ir para frente ou cair para trás. Com um pouco de sorte ela vai para frente e você ganha. Ou talvez não vá e você perde”.

A bola fica parada suspensa na rede. Corte. Chris Wilcott acaba de chegar para o emprego como instrutor de tênis em um clube inglês. Leitor de Dostoievski, Strindberg e amante da ópera, ele logo encontrará a senha de aprovação entre os Hewett, por meio da qual chegará a Nola Rice (Scarlett Johansson), a atriz norte-americana que será imediatamente expurgada pela família aristocrática inglesa e por quem Chris, num ímpeto que seria justificável apenas pela identidade que guardam entre si as pessoas de uma mesma classe social, não fosse o natural sex appeal de Johansson, se moverá em ritmo louco e obsessivo de paixão que o conduzirá àquela ‘sorte’ que descreve no prólogo do filme. Porque a bola, certamente, cairá para trás. Mas Chris, mesmo assim, ganha. Livre, tendo justamente uma aliança de casamento – a palavra casamento, que ele não honrou – como peça de salvação, ele estará preso, como mostra o plano final focado em seu rosto, fechado em um círculo de agonia e arrependimento.