Marina Person faz radiografia de uma geração em seu segundo longa, Califórnia

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Clara Gallo e Caio Horowicz em Califórnia: viagem aos anos 1980 Foto: Divulgação

A ideia de Marina Person para fazer Califórnia surgiu em 2004. Um ano e meio depois, ela concluiu o roteiro, mas, afirma, foi uma longa gestação até chegar à versão filmada, que assina com Mariana Veríssimo e Francisco Guarnieri.

Do começo da pré-produção do filme, efetivamente, que inclui os testes de elenco, até o lançamento, agora, foram mais de dois anos, conta a diretora. Em meio a essa trajetória, Marina concluiu o primeiro longa, o documentário Person (2007), sobre seu pai, o cineasta Luiz Sérgio Person (1936-1976), que ela credita como um filme muito pessoal, uma jornada de procura.

Califórnia fala sobretudo de Estela (Clara Gallo) e uma época, os anos 1980. A história da adolescente que adora David Bowie, e sonha em viajar para a Califórnia – onde vai encontrar o tio Carlos (Caio Blat), um jornalista superantenado que escreve para revistas de música -, espelha algo da própria Marina, que foi uma das VJ mais conhecidas da MTV Brasil.

Logo no início, a garota grava uma carta para o tio (enquanto David Bowie canta Five Years) e pergunta algo como: “É verdade que aí [nos EUA] tem um canal só de música?” Não podemos esquecer que a MTV chegaria ao Brasil apenas em 1990.  Mas Califórnia, segundo Marina, embora contenha muitas situações que aconteceram com ela e pessoas próximas a ela, não é um filme autobiográfico.

“Eu era fanática pelo Bowie. Como Estela, ia no Carbono 14 ver vídeos de música, comprava discos na Wop Bop, tinha uma queda pelo surfistinha da escola e me apaixonei por garotos tipo JM”, conta. JM (Caio Horowicz) é o colega de visual um tanto gótico transferido para a escola da garota que diz que não expulsaria Mick Jagger de sua cama ao ser perguntado por ela se é gay.

Marina Person também leu O Estrangeiro – livro de Albert Camus que Estela ganha de JM -,  “porque queria impressionar um cara que adorava The Cure”. Não é à toa que momentos importantes do filme estão muito bem representados pelo Cure, sobretudo Killing an Arab, a música que Robert Smith compôs inspirado no livro mais conhecido do romancista e filósofo existencialista.

Mas cineasta afasta qualquer traço maior de identidade, mesmo reconhecendo as semelhanças entre ela e a atriz: “Clara é a minha cara, né?”, fala, para em seguida arrematar: ” Isso não foi de caso pensado, eu testei meninas loiras, ruivas…”, afirma: o filme partiu da vontade de falar daquela geração, que teve as primeiras experiências sexuais exatamente quando a Aids foi descoberta.

Estela troca sua festa de 15 anos por uma viagem para a Califórnia, onde encontrará Carlos, aos 17 anos, se tiver boas notas. Mas tudo muda com o retorno do tio doente. É um tempo de incertezas. Também, um período de confluência do rock mais melódico de algumas bandas do BRock com o pós-punk inglês. E o momento da personagem em seu rito em direção à vida adulta.

Estela começa na fase do primeiro sutiã que não se esquece – definida pela relação com as colegas, o namoradinho da escola e as músicas do Kid Abelha e do Metrô que curtem nas festinhas – e acaba imbuída do sentimento de melancolia característico de bandas como Joy Division, New Order e The Smith, além do Cure. A princípio, Califórnia parece um filme bobinho. Parece, mas não é!