Cosmópolis é por inteiro a pura sensação de angústia, queda e enfraquecimento

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Robert Pattinson, no papel do bilionário Erick Michael Parker, em Cosmópolis, do canadense David Cronneberg

Cosmópolis, de David Cronenberg, é um filme genial. Falam em Javier Bardem para ganhar o Oscar de coadjuvante em Skyfall, o novo 007. E Paul Giamatti?

A frase que sintetiza Cosmópolis, dentre inúmeras outras tiradas ótimas do filme, é quando,  em uma longa e definitiva sequência, Giamatti diz a Robert Pettinson algo como: “Por que você entra em um lugar sabendo que vai ser morto?”

Isso é puro Kafka, teatro do absurdo e existencialismo sartreano. Não podemos esquecer que foi Jean-Paul Sartre quem nos legou a força da expressão Huis clos, Entre quatro paredes, como metáfora de um caminho sem volta.

Filme devastador, Cosmópolis se passa dentro de duas bolhas.

São as ‘paredes’ da Limousine e da própria Nova York, o símbolo de um mundo em ruínas que o personagem de Pattinson, o grande investidor Erick Michael Parker, vai atravessar para cortar o cabelo, na tentativa de sobrepor-se a um destino irreconciliável.

Diríamos que se trata de um épico ao avesso, não importam os rios de turbulência por que Parker tem que passar, até sabermos que o filme dá conta de uma sensação de abulia, contra a qual não há mais como lutar, e dos mistérios do organismo, um terreno cronenberguiano por excelência.

A tal da próstata assimétrica, assim como o útero trifurcado da atriz que vira a cabeça dos irmãos ginecologistas de Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988), é o estado de crise que o filme detecta no tecido humano – de Parker, de New York e do mundo.

Manifestação violenta, tensa, Cosmópolis cai como uma obra-prima pronta. Causa sensação de angústia, queda, enfraquecimento.

Já há cópias disponíveis em DVD e Blue ray. É um absurdo que tenha sido exibido em Salvador em quatro sessões: apenas às 19h40, às terças e quintas, durante duas semanas, no Cinemark.