Mais duas ou três coisas sobre Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

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Camila Pitanga e Zecarlos Machado: influência do norte-americano John Cassavetes

Meu amigo Andre Blhoem comentou, no outro post, que não gostou de Eu Receberia as Pìores Notícias dos Seus Lindos Lábios. Concordo com ele, em parte, porque vejo problemas no filme, mas admiro o trabalho de Beto Brant e Renato Ciasca, ao adaptar o livro de Marçal Aquino. Escrevi esse comentário abaixo em um impulso, em resposta a ele, na madrugada, mas gostaria de torná-lo mais visível, porque complementa meu post anterior sobre o filme.

Gosto sobretudo do trio central de atores e da referência ao cinema de Michelangelo Antonioni, notadamente O Passageiro: Profissão Repórter, na presença de Cauby (Gustavo Machado), em sua busca existencial, e ao cinema de John Cassavetes, cuja opção pela liberdade no ato de filmar, privilegiando a improvisação, é flagrante. Em certos momentos, Camila Pitanga, como Lavínia, me lembra a atriz Gena Rowlands, mulher de Cassavetes.

A sequência de Lavínia caída na calçada, sendo amparada pelo pastor Ernani, personagem de Zecarlos Machado (um ator e tanto), que se tornará seu marido, lembra Uma Mulher Sob Influência, guardadas as devidas proporções, pois este é um grande filme em que Rowlands surge esplendorosa, no papel de uma mulher abalada, em grandes solos de desequilíbrio e instabilidade psicológica.

Vejo Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, no entanto, se perder um pouco na estrutura narrativa que o identifica, à primeira vista, com o film noir americano. A trama, que inicialmente dá conta de Lavínia como uma mulher ambígua, provavelmente uma femme fatale que conduzirá Cauby a um destino trágico, concentra-se no perfil da personagem, conduzindo-a a um outro registro. Isso, em si, é muito interessante, porque subverte o que conhecemos como característica básica do film noir. E subversão em arte e cinema é tudo.

Mas, inclinados nesse sentido, os diretores deixam de lado pontos fundamentais, como a questão do desmatamento, uma das lutas encampadas pelo pastor, encontrando soluções fáceis e frágeis para os embates com o poder naquele mundo de meu deus. Uma pena, porque poderíamos ganhar algo muito melhor, na linha de um Chinatown, de Polanski, que acrescenta a uma trama de assassinato questões como o incesto e uma história diabólica envolvendo posse de terra e o sistema de distribuição de água da cidade de Los Angeles.

Mesmo assim, assisti ao filme de Beto Brant e Renato Ciasca com muita atenção e interesse. Veja o comentário que fiz, anteriormente, sobre  Eu Receberia

FICHA TÉCNICA
Diretor: Beto Brant, Renato Ciasca
Elenco: Gustavo Machado, Camila Pitanga, Zecarlos Machado, Gero Camilo
Produção: Renato Ciasca, Bianca Villar
Roteiro: Beto Brant, Renato Ciasca, Marçal Aquino
Duração: 100 min.
Ano: 2011
País: Brasil
Distribuidora: Sony
Estúdio: Drama Filmes
Classificação: 16 anos