L’Apollonide, de Bertrand Bonello, é uma bela reflexão sobre o prazer e o gozo

L'L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância

L'Apollonide - Os Amores da Casa de Tolerância: encantos e tragédias em um bordel na virada do século XIX

É na magnífica sequência de Casanova (Il Casanova di Federico Fellini, 1976), em que o cineasta italiano e o maestro Nino Rota enchem a tela de poesia, ao pontuar o encontro sexual entre um boneca mecânica e o famoso conquistador veneziano que atravessa os salões e as camas europeias do século XVIII, que encontramos um contraponto para o filme de Bertrand Bonello.

L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância, o filme que ora nos assusta e inquiteta, transcende a etiqueta pornô soft para nos levar por um caminho de reflexão sobre o gozo, ao centrar-se numa espécie de último bordel francês e em suas damas que dali extraem, na virada dos séculos XIX e XX, seus humores, desencantos e tragédias.

Assista à sequência do filme de Fellini:

Para o autor só há gozo se não houver sofrimento. É por isso que “a mulher que ri”, a Madeleine de Bertrand Bonello, interpretada com exatidão por Alice Barnole, que expõe duas enormes cicatrizes lado a lado da boca cortada a canivete por um cliente na hora do sexo, chora lágrimas de esperma.

Não há satisfação enquanto se impõe o sacrifício, mas somente depois, afinal, sob a máscara que lhe esconde a dor, e a expõe ao prazer, ela chega ao orgasmo. É uma espécie de reafirmação de todos os outros momentos em que a breve satisfação, que se parece infinita, não se consolida nela e em todas as suas companheiras de bordel submetidas aos caprichos dos homens que as frequentam.

Há aquele que só quer transar em uma banheira de champanhe, outro que quer chegar ao rosto da prostituta mirando-lhe o sexo, ainda aquele, o do canivete, que experimenta a satisfação que o limite com a violência lhe proporciona, até que realmente consegue chegar de fato às vias que sempre desejou percorrer.

E, dentre outros, o que manda a mulher, durante o ato, se comportar como uma boneca mecânica, a boneca mecânica que, enfim, em Casanova de Fellini, talvez seja o único e verdadeiro amor do sedutor pintado pelo cineasta italiano, que o detestava, como uma espécie de espectro a se movimentar incontinenti entre um sem-número de mulheres, freiras, corcundas, frígidas, velhotas, que somente lhe expunha à solidão.

Veja o trailer de L’Apollonide:

Mas a boneca, parece que não. Admiráveis mesmo os momentos em que Donald Sutherland, no papel de Casanova, entra no mar tomado pela bruma, atrás de uma mulher de metros de altura. Ou quando, depois de brigar com duas aristocratas, desce da carruagem e resolve cometer suicídio. Mas, se for para se matar, diz, então que seja com a sua melhor roupa.

Falo isso de memória, pois há décadas não vejo o filme de Fellini, que a um só tempo é um retrato da opulência e decadência de uma personalidade excessiva e incômoda. Retrato, aliás, que é a cara de L’Apollonide, em que Bonello situa sua história entre dois mundos, o do século XIX e o do século XX, entre o crepúsculo e a aurora. E é entre dois mundos que L’ Apollonide vai se equilibrar, percorrendo assim um itinerário de estranhezas que confronta presente e passado, clássico, moderno e contemporâneo.

Seja em sua trilha, de inserções anacrônicas magnificamente bem boladas, que mescla Mozart e Puccini a Bad Girl, com Lee Moses, Nightn in White Satin (Justin Hayward) e experimentações feitas por ele próprio, Bonello, o compositor; seja em suas referências literárias, que, de um realismo cru nos faz passar a um naturalismo cirúrgico até chegar aos momentos mágicos de observação de comportamentos sobre os quais só conseguimos dar conta vendo sob perspectiva alegórica.

Um cinema desconcertante (se cavarmos mais fundo encontraremos ali o movimento solene de Salò, a última missa de Pasolini), que nos desestabiliza à maneira de um Bergman luminoso, depois de submeter três irmãs e uma criada ao sofrimento e à dor, entre quatro paredes. Assim é L’Apollonide: o Bonello de Madeleine, Samira, Clotilde, Julie, Léa e Pauline, que em apenas alguns momentos retira as garotas do inferno, e as conduz, como o Ingmar Bergman do final de Gritos e Sussurros, ao passeio no campo, à liberdade, aos instantes de felicidade.

L’Apollonide – Os Amores da Casa de Tolerância
De quem: De Bertrand Bonello
Em cartaz: Circuiton SaladeArte

Casanoiva de Fellini
De quem: Federico Fellini
Onde encontrar: Vintage Vídeos