Kim Ki-Duk submete espectador à sensação de dor sofrida por seus personagens

Pietá - pontocedecinema.blog.br

PIETÁ – Não é exagero. Assistir à Pietá, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza em 2012 e estreia nesta sexta-feira em Salvador, é sair moído do cinema. Cinema de opressão, diga-se de passagem, o do sul-coreano Kim Ki-Duk, que, como raros diretores, sabe extrapolar o poder de sugestão da imagem para submeter o público à sensação quase real de dor física e agonia que vivem seus personagens.

A falta de compaixão, ao contrário do que sugere o título, domina o filme na figura de um rapaz que cobra dívidas de agiotagem mutilando os devedores para receber o dinheiro do seguro. Trata-se de uma metáfora. Onde estamos, para onde vamos. Um microcosmo materializado em brutalidade. Não é o dinheiro que vale mais: os dilemas são suplantados pela ação impiedosa e imperiosa.

A crueldade se torna mais grave com o surgimento da suposta mãe do rapaz, que o teria abandonado ainda criança e se põe como contraponto infernal ao ato de piedade da Virgem Maria ao segurar o corpo do filho morto, Jesus, retratado por Michelangelo (1465-1574) na célebre Pietà na qual se inspirou o sul-coreano depois de vê-la, em viagem a Roma, no Vaticano.

Pietá se utiliza de poucos movimentos de câmera, a música entra apenas em ocasiões necessárias, mas as angulações insólitas, embora discretas, reafirmam poder e opressão, juntando-se às soluções cenográficas: as máquinas pesadas das oficinas das vítimas são a representação máxima da industrialização galopante, do capitalismo e da selvageria que suplantam o mérito do espírito de humanidade.

São utilizadas como instrumentos de sacrifício daqueles devedores, vítimas do agiota, agente de uma estrutura ainda mais complexa, que internaliza e faz explodir no outro o sofrimento determinado pela falta da mãe. Não é sem razão que um rapaz que acaba de saber que vai ser pai, e pede para ter as duas mãos mutiladas e assim receber o seguro em dobro, é poupado pelo agiota. Santa piedade!

FICHA TÉCNICA
Diretor: Ki-duk Kim
Elenco: Min-soo Jo, Eunjin Kang, Jae-rok Kim, Jeong-jin Lee, Ki-Hong Woo, Jin Yong-Ok
Produção: Kim Soon-Mo
Roteiro: Ki-duk Kim
Fotografia: Jo Young-Jik
Trilha Sonora: In-young Park
Duração: 105 min.
Ano: 2012
País: Coreia do Sul
Gênero: Drama
Classificação: 16 anos