Kiarostami redesenha o amor e a possibilidade de um final feliz

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William Shimell e Juliette Binoche em Cópia Fiel: o cineasta iraniano Abbas Kiarostami fala de amor, arte e autenticidade

A atmosfera, o tempo cinematográfico e os pequenos gestos na sequencia em que William Shimell observa Juliette Binoche, em Cópia Fiel , nos remetem àquela de O Ano Passado em Marienbad, um dos momentos brilhantes do filme de Alain Resnais. (Vejam os vídeos abaixo. O de Marienbad só até os 19 segundos do primeiro minuto).

Primeiro o narrador de Marienbad conta, sem que de fato se passem na tela, os momentos em que a mulher tropeça, enquanto percorrem, os dois, os imensos jardins do hotel onde ele jura que se encontraram no passado. A cena, apenas narrada, fica gravada na mente, enquanto o filme segue, até que as imagens, essas do vídeo, irrompem deslumbrantes. Pelo jardim, quase em carne e osso, Delphine Seyrig anda, tomba e é amparada pelo homem. Em Cópia Fiel, é como se Binoche fosse, enfim, a Seyrig que admitisse antes o cansaço.

Esse é apenas um exemplo do catálogo de referências do filme que deu o prêmio de Melhor Atriz a Juliette Binoche no Festival de Cannes do ano passado e que tem como influência mais óbvia Viagem à Itália, de Roberto Rossellini, que mostrava Ingrid Bergman e George Sanders como um casal em crise viajando a Nápoles para vender a propriedade que herdou de um tio.

AUTENTICIDADE – No filme de Kiarostami, como em Verdades e Mentiras, de Orson Welles, a ideia é que a cópia pode ser tão boa quanto o original. Welles falava de arte, falsificação e da sua vida como um notável mistificador. Kiarostami fala de arte e de gente. Também de si opróprio e de um casal que, no presente, ganha um passado improvável. Como o do casal de Marienbad.

Na virada dos anos 50 para os 60 do século passado, com Marienbad e Hiroshima, Meu Amor, Resnais inaugurou uma narrativa. E por isso passou a ser conhecido como o cineasta do tempo e da memória.

Cópia Fiel tem muito a ver com o tempo e a memória tão esgarçados pelo cineasta francês nos dois filmes, mas investigados com rigor cirúrgico por ele nas teses comportamentais desenvolvidas com personagens em Meu Tio da América, realizado em 1980, tendo como princípio as pesquisas feitas com irracionais pelo cientista Henri Laborit.

Resnais inventou uma narrativa, e mergulhou uma geração em um ritual memorialístico presente, quase palpável, embora negado pela mulher em Marienbad. A memória, em Kiarostami, é vaga, mas consentida por ambos, o que nos remete ao tempo distendido por Michelangelo Antonioni em A Noite, que também mostra um casal em crise. Mas o que intriga, em Cópia Fiel, é a presença dos dois que acabam de se conhecer, irrompem na tela como se há muito convivessem – igual ao par formado por Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau – e parecem inaugurar um futuro.

OBRA ABERTA – Os últimos instantes do filme de Kiarostami nos absorve e o confirmam como uma obra aberta. E nos remetem à tela desenhando-nos uma grande interrogação. Equivalem, em alguns aspectos, aos inúmeros enigmas propostos em Profissão: Repórter e, enfim, ao famoso plano-sequência da janela do quarto naquele filme de 1975, de Antonioni, em que Jack Nicholson interpreta um jornalista que troca de identidade com um homem morto, seu vizinho em um hotel, na África.

O cineasta iraniano segue tão silenciosamente e explosivo quanto Antonioni. E nele, o artista, também está instalada uma crise, que não é apenas a dos casais de Marienbad e de A Noite. Mas uma crise de identidade em torno de questões concernentes à autenticidade de sua própria obra de arte, Cópia Fiel, e mesmo de todos nós, humanos, não mais indivisíveis.

Já que é impossível encontrar caminhos e respostas, como em Antonioni, Kiarostami abre uma janela, ao final de Cópia Fiel. Mas prescinde da espiral de acontecimentos que só poderiam levar o personagem de Profissão: Repórter à morte. Em Cópia Fiel, Kiarostami é tão simples, acredito eu: ele redesenha o amor e a possibilidade de um final feliz, como em Viagem à Itália.