Cassavetes diz por que o show não deve parar

Noite de Estreia - pontocedecinema.blog.br

Gena Rowlands em Opening Night: construindo uma estrela em crise às vesperas da estreia de um grande espetáculo

A atriz Myrtle Gordon (Gena Rowlands) é a estrela adorada por quase todos em Noite de Estreia (Opening Night, 1977). O filme passa hoje (11/7), às 18 horas, na Sala Walter da Silveira, dentro da mostra dedicada a John Cassavetes. Amanhã será a vez de A Morte de Um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, 1976), a história de Cosmo Vitelli (Ben Gazzara), o dono de uma casa de shows de striptease em Los Angeles que é cooptado pela máfia para cometer um assassinato por conta do pagamento de uma grande dívida de jogos.

Opening Night seria um solo magistral apenas de Rowlands, não fosse a presença de um elenco de peso, como ocorre em todos os filmes de John Cassavetes, que inclui o próprio cineasta como partner da estrela que vive o momento de crise antes da grande estreia, em Nova York, e Ben Gazzara como Manny Victor, o diretor da peça, que conduz com atenção a atriz que muda falas e marcações, briga com a equipe e vai ao desespero, deflagrado pela morte de uma fã, aos 17 anos de idade, vítima de acidente de carro logo depois de lhe pedir um autógrafo.

Estudo sobre a maturidade e as incertezas específicas decorrentes desse período da vida, Noite de Estreia é também um inventário das manifestações de carinho que povoam as relações entre o artista e seu público. Mas John Cassavetes não se satisfaz com isso: em Opening Night, desloca feixes de luz sobre Myrtle Gordon e faz da estreia uma noite de fé, dominada pela tensão e o medo de o grande momento não acontecer, em grandes sequências que alternam palco, coxias e camarins.

A Morte de Um Bookmaker Chinês - pontocedecinema.blog.br

Gazzara comanda uma boate em A Morte de Um Bookmaker

A única certeza enquanto se desenvolve Opening Night é que o espetáculo deve acontecer. Isto está plantado no rosto, na fala, no gesto do diretor da peça, interpretado por Gazzara, que, um ano antes, em A Morte de Um Bookmaker Chinês, parecia refletir o mesmo, também pelas mãos de Cassavetes, em sua viagem interior, percorrendo ruas e caminhos de Los Angeles e Hollywood, para livrar-se dos gangsters que condicionam o pagamento da dívida à pratica do crime.

No papel de Vitelli, Gazzara é obrigado a matar o concorrente chinês dos mafiosos, mas o crime desdobra-se em vários. E ele perde a namorada, o carinho da mãe da namorada, mas, ainda que baleado, não desiste de colocar no palco o show de Mr. Sofistication, o mestre de cerimônias de sua casa de espetáculos de terceira categoria, com as suas maravilhosas e engraçadas De-Lovelies.

Filme pouco conhecido no Brasil na época em que foi produzido, e até mesmo décadas depois, como de resto quase toda a obra de Cassavetes, A Morte de Um Bookmaker Chinês está entre os grandes thrillers realizados nos anos 1970. Quatro anos antes de Cassavetes obter o seu maior sucesso de público com Gloria, que ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, ele percorre, à maneira de um Martin Scorsese em Nova York, os ‘caminhos perigosos’ de uma cidade como Los Angeles.

O nome de Scorsese não aparece à toa. John Cassavetes foi um dos mentores de uma geração de notáveis, dentre eles Francis Ford Coppola, Bob Rafelson, Dennis Hooper, Bob Fosse e o próprio Scorsese, que formaram a Nova Hollywood, em contraposição às amarras dos grandes estúdios, assinalada por Peter Biskind no livro Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood.

É por isso que não se pode ver Noite de Estreia e A Morte de Um Bookmaker Chinês sem pensar em filmes como Cabaret, Lenny e All That Jazz, de Bob Fosse, e Caminhos Perigosos, Taxi Driver e New York, New York, de Scorsese.

Noite de Estreia e A Morte de Um Bookmarker Chinês
Duração: 144 e 135 minutos, respectivamente
Onde encontrar: Vintage Vídeo
Em exibição: Noite de Estreia (hoje, 11/7, 18h) e A Morte de Um Bookmaker Chinês (amanhã, 18h). Sala Walter da Silveira