O dia em que o metrô de Salvador começou a funcionar

Jaredim das Folhas Sagradas - pontocedecinema.blog.br

Harildo Déda e Antônio Godi em Jardim das Folhas Sagradas, que estreia em Salvador em 7 de outubro


Publico novamente comentário que fiz sobre Jardim das Folhas Sagradas, que estreou sexta-feira (4/11), postado originalmente no último mês de agosto, por ocasião do Panorama Internacional Coisa de Cinema, onde foi exibido em première.

A frase poderia ser o título de um cordel de Cuíca de Santo Amaro, o cronista da cidade que encantou a Bahia entre as décadas de 1940 e 1960, cuja presença marcante abria e fechava um dos filmes mais conhecidos e queridos aqui já realizados, A Grande Feira (1961), de Roberto Pires. Mas, na verdade, ela dá fé de um milagre operado pelo cineasta Pola Ribeiro e sua equipe técnica, em Jardim das Folhas Sagradas, que foi exibido na noite de ontem, em première, no Panorama Internacional Coisa de Cinema e que estreia comercialmente em Salvador e mais quatro cidades em 7 de outubro, estende-se depois para outras praças até chegar ao Rio de Janeiro e São Paulo em 18 de novembro.

Um belo plano geral do entorno do Vale do Nazaré e início da Avenida Bonocô mostra a Fonte Nova ainda de pé e o famigerado metrô (não inaugurado e que tanta polêmica provoca ao longo de 12 intermináveis anos de construção) cruzando a cidade até uma estação, de onde desce o bancário Bonfim (Antônio Godi), protagonista do filme, sobre o qual pairam todos os conflitos do mundo. A cena fricciona, impactua e arranca o riso do público. Trata-se de um feliz comentário sobre uma cidade que se debate em infinitos problemas por conta de um salto desordenado de modernidade.

A província praticamente se esgotou, dela não se conservaram os traços tradicionais que tanto encantavam. Em muitos sentidos impera o atraso. É contra essa debilidade que se insurge Jardim das Folhas Sagradas, que abre o debate sobre sexualidade, ecologia, intolerância religiosa e tradição e modernidade tendo como eixo a figura do bancário bissexual, filho de mãe de santo negra e pai de santo branco, criado no axé, a quem é dada a missão de assumir o sacerdócio de Ossain, o orixá das folhas, e abrir um terreiro de candomblé.

Bonfim é casado com a evangélica Ângela, interepretada por Evelin Buchegger, mantém um relacionamento amororoso com o ex-colega de trabalho Castro (João Miguel), não se sente inclinado a abrir o terreiro, porquanto, além de tudo, é contra a matança de animais, mas resolve cumprir o dever para o qual foi consagrado ainda na barriga da mãe, enquanto ela estava sendo feita no santo, ao perder o amante em acidente de carro e deixar a mulher e o emprego no banco por conta do preconceito racial. Mas o terreiro será moderno, sem os tradicionais sacrifícios, o que é perigoso, conforme alerta seu padrinho Martiniano (Harildo Déda).

Terreno escolhido, entra em campo Bará (Érico Brás), que fará a ponte para o negócio que na realidade se revelará escuso, dando margem à especulação imobiliária que, enfim, será um dos maiores conflitos do filme, que conta ainda com a intolerância dos evangélicos (incluindo a mulher). Bonfim terá no antropólogo interpretado por Sérgio Guedes um conselheiro, enquanto o jornalista Bará será o passo em falso, uma espécie de mensageiro identificado com Exu, que não surge exatamente como representação do mal, mas cria, investe e organiza o tumulto que, afinal, é importante para a resolução do eterno conflito de Bonfim.

O personagem parece um espécie de alter ego do cineasta que, durante bate-papo com o público, depois da exibição do filme, disse que nesse processo todo, de aprendizado nas coisas do candomblé, é ainda um ignorante e se sente mais no papel de comunicador. É nesse âmbito que se insere o comentário em torno da modernidade e do metrô de Salvador como arremate de uma crônica que poderia sair da língua do repórter Cuíca de Santo Amaro, que abre o filme de Roberto Pires, ao pé do Elevador Lacerda, com uma espécie de profecia sobre o destino da Feira de Água de Meninos, destruída por um incêndio em 1964, dois anos depois da realização de A Grande Feira. Imagem que ganha eco, em Jardim das Folhas Sagradas, na fala do jornalista Bará, quando diz que a feira, o Teatro Castro Alves e o Mercado Modelo pegaram fogo, por que, então, o terreiro não poderia pegar.

Dito isso, parece que Jardim das Folhas Sagradas não tem problemas. Tem, sim. O eixo dramático para o qual se dirigem todas as linhas no sentido de encontrar a resolução dos conflitos está meio perdido quando Bonfim resolve deixar o emprego por força do preconceito, sobressaindo, ali, o vazio das relações no trabalho. E os acontecimentos em torno da especulação imobiliária e a falsificação de documentos para a venda do imóvel onde foi instalado o terreiro não ganham a força que a gravidade da situação pede, resultando em perda do impacto que o filme requer. Mas Jardim das Folhas Sagradas revela-se em vários momento de encanto e arte, além do respeito pela coisa sagrada, com boas atuações, ótima fotografia de Antônio Luiz Mendes e um momento rico de reflexão, sobre essa Bahia maltratada de hoje, que deve ser visto pelo público com muito carinho.