O Nego Dito/Beleléu no tempo de um café

Daquele Instante em Diante - pontocedecinema.blog.br

Daquele Instante em Diante, documentário que retrata a vida e a carreira de Itamar Assumpção, está de volta a cartaz

Na semana passada, havia noticiado a exibição em Salvador de filmes com cara de lado B do cinema brasileiro. Cara de lado B talvez não seja o nome ideal, porque é um rótulo. Mas é o que está em voga para designar um tipo de produção que não tem a chancela da Globo Filmes, não ganha merchandising em programas e novelas de televisão e, portanto, percorre os corredores da distribuição cinematográfica em caminho de pedras.

Pacific, de Marcelo Pedroso, permanece em cartaz, com entrada franca, no Cine ao Meio-Dia da SaladeArte Cinema da Ufba. A Ex Isto, de Cao Guimarães, vêm se associar Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso, documentário sobre Itamar Assumpção, e Assim É, Se Lhe Parece, de Carla Gallo, sobre o artista plástico Nelson Leirner. Os três compõem a série Iconoclássicos, do Itaú Cultural, e são exibidos gratuitamente no Unibanco Glauber Rocha.

Não podemos esquecer dos dois filmes de Felipe Bragança e Marina Meliande, A Fuga da Mulher Gorila e A Alegria, ambos com exibições comerciais também nos dois circuitos. Mas, por ora, fiquemos com Daquele Instante em Diante, que na realidade está de volta a cartaz. O filme cerca o gênio de Itamar Assumpção, o músico paulista que morreu em 2003, aos 53 anos de idade, e ostentou durante toda a trajetória, contra a sua vontade, a fama de maldito.

Além da viúva, Elizena, e das filhas Anelis e Serena, o filme traz depoimentos de parceiros como Luiz Tatit, Alice Ruiz, Arrigo Barnabé, Suzana Salles, Alzira Espíndola e Luiz Waack. E descortina a personalidade incomum de Assumpção e sua arte. É reverente, ao mesmo tempo que incisivo, ao tocar na ferida deste grande artista brasileiro que não se domava e preferia um modo de produção próprio, particular, a se render aos grandes estúdios e ao mesmo tempo se proclamava um artista popular.

Está ali o Itamar performático dos grandes espetáculos do Teatro Lira Paulistana, o espaço que foi o molde da Vanguarda Paulista, da qual Assumpção e Arrigo Barnabé foram os gênios mais conhecidos e proclamados, está ali o Itamar bisneto de angolanos, nascido na cidade de Tietê (SP), que recolhia tudo em seu catálogo de referências sonoras, de Adoniram Barbosa a Cartola, de Jimi Hendrix a Miles Davis, passando por Ataulfo Alves, a quem dedicou um dos seus melhores discos, nos anos 1990, com a banda Isca de Polícia.

Ao Nego Dito/ Beleléu (Meu nome é/ Benedito João dos Santos Silva Beleléu/ Vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé) invocado no primeiro disco, associam-se o Itamar Assumpção caseiro, o parceiro de poetas como Paulo Leminski e Alice Ruiz, o amante de plantas, sobretudo orquídeas, além, é claro, do compositor, cantor, instrumentista, arranjador e produtor musical que, como ninguém, controlava sua criação e moldava a forma de entregá-la para o mundo.

O bem e o mal de Itamar é revelado em sua extensão por Rogério Velloso no documentário que põe luz, com muita competência, sobre a arte de um dos artistas mais incompreendidos da música brasileira. E o o faz sem desgaste, sem firulas, em jogo aberto de entrevistas em que se destacam, além de Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e Alice Ruiz, a presença da cantora Suzana Salles, que conversa com a equipe do documentário enquanto prepara um café.

Talvez esteja aí o maior mérito de Daquele Instante em Diante: além de ser tão fiel ao espírito, à arte, nos levar à intimidade de Itamar Assumpção, nos fazer sentir, durante a projeção, que gastamos ali, apenas, o tempo de um café.