Irlandês Lenny Abrahamson revela o estranho e luminoso mundo de Jack

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O filme mostra um garoto de cinco anos confinado com a mãe em um quarto de 10 m² Foto: Divulgação

Dirigido por Lenny Abrahamson, O Quarto de Jack é seguramente o mais inventivo entre os que concorrem ao Oscar principal, o que não significa dizer que seja, necessariamente, o melhor. O filme foi apresentado em primeira mão no Festival de Toronto do ano passado, onde recebeu o grande prêmio do público.

Típico produto do cinema independente, o conceito de O Quarto de Jack vem subindo entre público e críticos pelo menos desde que Brie Larson, a atriz que faz a mãe confinada com o filho de cinco anos em um quarto de 10 metros quadrados, ganhou o Globo de Ouro.

O Quarto de Jack concorre em quatro categorias principais – além de Filme, Melhor Diretor, Atriz e Roteiro, adaptado pela própria autora do livro, Emma Donoghue, que se baseou na história de uma mulher mantida em cativeiro pelo pai, com quem teve sete filhos.

No filme, a história se torna, em um primeiro momento, e na essência, a história de Jack (Jacob Tremblay) e sua mãe, Joy – que chama de Ma -, quando ele completa cinco anos.

O aniversário tem apenas bolo, sem velinhas. O ambiente é claustrofóbico. O menino conhece a luz  pela claraboia do pequeno espaço onde vive desde que nasceu, e  a televisão, para ele, faz parte de um universo que não existe mais.

Mas esse ambiente lúdico, de um mundo à parte, onde qualquer situação ou objeto contém um sentido único e particular, está com as horas contadas.

Para a mulher, o garoto já está grande o suficiente para pôr em pratica um  plano e se ver livre do sequestrador, o homem que visita ocasionalmente o cubículo, enquanto o menino filtra sua relação com a mãe pelas frestas do armário onde é mantido.

O filme então muda completamente de plano e toma outra dimensão sobre a qual não se pode dar detalhes aqui, sob pena de frustrar a expectativa de quem ainda não o viu. O Quarto de Jack é dado a conhecer apenas aos poucos pelo diretor. E isso o define, por assim dizer, em sua excelência, a capacidade inventiva citada que o distingue dos demais.

São os primeiros momentos os mais angustiantes, em que não se sabe de nada e essa falta de informação talvez seja o que mais aflige, porque apenas se apresentam partes de um todo.

Lenny Abrahamson se vale dos detalhes. E utiliza os planos, as angulações insólitas – a forma como foca o ambiente e os objetos – para entregar um filme de dimensão onírica e sensorial, que seguirá assim até o final.

Mas aqui, nesse limiar de O Quarto de Jack,  esta dimensão é pesada. A natureza do sonho adquire variantes dignas. O que para a criança seria uma forma de se conectar com um mundo desconhecido, mas intrinsecamente necessário, mesmo que ‘irreal’, para Joy tem a ver com a resolução de questões mais básicas como o trato com a existência e o amparo materno.

É por isso que, uma vez tendo parte das questões resolvidas, a ‘realidade’, para Joy, se torna um fardo, como visto na sintomática sequência da entrevista que concede à televisão, que delimita o pesadelo e instaura a crise.

O cabelo de Jack - que parece apenas algo plausível, dado o estado de confinamento da criança desde o nascimento, e suscita alguma questão inicial quanto ao indicativo de gênero – será então a pièce de résistance do filme.

Esquecido pelo Oscar, o menino Jacob Tremblay representará, com extrema eficiência e delicadeza, esse poço de virtudes que se chama Jack, longe de um insensato mundo sombrio e em contato com a luz e a natureza, ao puxar o fio do novelo e resgatar a mãe do túmulo ao qual ela já se havia destinado.