Incêndios fulmina o público com o olhar de uma criança

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Jeanne e Simon (Melissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette) reconstituem o passado da mãe, Nawal (Lubna Azabal)

Candidato a Melhor Filme Estrangeiro na edição do Oscar deste ano, Incêndios (2009) está em cartaz há seis semanas, em Salvador, e parece não dar sinais de desgaste. O longa do canadense Denis Villeneuve (Redemoinho, 2000), que traz à tona um drama com desfecho surpreendente que resulta de tragédias familiares durante a guerra entre cristãos e muçulmanos nos anos 1970 e 1980 no Oriente Médio, possui todos os ingrediente de um melodrama.

Se preferisse as lágrimas, não seria um problema, a depender de como conduzisse a narrativa. Mas o cineasta, que adapta a peça do libanês radicado no Canadá Wadji Mouawad, não dá vez a emoções baratas: trabalha dentro de um limite, de modo a conduzir o público a um mergulho na condição humana ao abordar o drama dos irmãos gêmeos Jeanne e Simon Marwan (Melissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette), que, ao perderem a mãe, Nawal Marwan (Lubna Azabal), são levados a revolver o passado e se confrontar com uma experiência devastadora.

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O diretor canadense Denis Villeneuve: história trágica

CARTAS – A morte não é o fim de uma história, diz, em dado momento, o tabelião Jean Lebel (Rémy Girard) – para quem Nawal trabalhou durante anos como secretária, no Canadá –, responsável pelo testamento: a mãe quer ser enterrada nua, de costas para o mundo, mas antes os gêmeos têm que entregar uma carta ao pai, sobre o qual ela nunca falou aos filhos, e outra a um irmão, bebê ao qual, desonrada ainda muito jovem, foi obrigada a renunciar logo depois do parto.

Denis Villeneuve constrói uma narrativa sóbria, mas cheia de idas e vindas, entre a presença dos irmãos no Canadá e a viagem ao Oriente e o resgate da história da mãe. Obrigada a deixar a terra natal logo depois de parir, Nawal Marwan não desiste de encontrar o filho e se envolve na guerra religiosa entre cristãos e muçulmanos. Torna-se uma guerrilheira e vai para a cadeia, onde passa 15 anos e vive o segundo e definitivo momento trágico de sua vida. O primeiro foi ver o pai de seu filho assassinado pelo irmão e ter a vida poupada com interferência da avó.

FOGO CRUZADO – O filme de Villeneuve não é feito de concessões. Dele se sai com sensação de brevidade, embora dure 130 minutos descrevendo uma trajetória de vida dolorosa, que compreende um período de quase 40 anos. Incêndios mantém-se o tempo todo sob foco do espectador, que se sente em meio ao fogo cruzado da guerra. Mas o diretor parece querer nos situar, antes mesmo de nos contar a história daquela guerra, nos labirintos conflituosos e trágicos das relações humanas.

Logo no início do filme, a câmera recua de uma ampla paisagem. É vegetação, folhagem, mas é pedra. Um casal tenta fugir por entre as rochas. A fotografia de André Turpin vai nos conduzir por esses caminhos com tonalidades de chumbo. Em movimento contínuo, a câmera percorre a casa onde está o menino tirado da mãe até parar num ponto fixo. Começamos ali a ser fulminados pelo olhar de uma criança.

Incêndios (Incendies)
De Denis Villeneuve
Com: Lubna Azabal, Melissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette
130 minutos
Onde ver: SaladeArte-Ufba