Heleno, o inferno pessoal do jogador do Botafogo

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Rodrigo Santoro no papel de Heleno, o temperamental jogador do Botafogo

Diríamos que existe uma relação de coautoria entre ator, cineasta e fotógrafo em Heleno, a cinebriografia do jogador do Botafogo que brilhou no clube carioca até o final dos anos 1940. A narrativa da vida do atleta que se deixou engolir pelo culto desmedido à própria habilidade, a ponto de se tornar um fracasso, seria outra sem Rodrigo Santoro, José Henrique Fosenca e Walter Carvalho juntos.

É um formidável exercício de contraposições que se vê ali, sobretudo em relação à fotografia, que dita norma: o branco no preto aflige, como um farol que ao mesmo tempo cega e ilumina. Estourada, a luz de Walter Carvalho se ramifica no filme de Fonseca, dando o tom de uma narrativa embebida daquela ideia de glória e decadência que, enfim, permeia a carreira de Heleno de Freitas, vivido à exaustão por Rodrigo Santoro.

Parece mesmo um deslumbre a vida daquele ídolo de futebol talentoso, bonito e garanhão que logo cedo descobre a sífilis, mas não quer se tratar e prefere prosseguir com a vida de boemia, sempre às turras com os cartolas e colegas de clube e embriagado de álcool, éter e mulheres.

Personalista, arrogante, Heleno de Freitas chama seus parceiros de pernas-de-pau e, em uma das sequências mais fortes do filme, recusa (e quer mesmo que todos recusem) o bicho pago por um simples empate. Em algum momento diz que todo jogador deveria ouvir uma ópera antes de entrar em campo.

Resgatando esse tom grave, essa compreensão do sentido trágico da vida, Henrique Fonseca põe termo ao painel de exaltação e decadência da vida de Heleno com o adagietto da 5ª sinfonia de Mahler. O mesmo utilizado por Luchino Visconti para marcar a trajetória do músico Gustav von Aschenbach (Dirk Bogarde), de Morte em Veneza (1971), em sua deambulação em busca de um ideal de beleza.

Heleno é um belo filme, que esbanja harmonia e estilística própria, usando como referência (e isso já foi exaustivamente constatado) o filme Touro Indomável (1980), em que Martin Scorsese disseca a vida de Jake LaMotta e constrói um relato de extrema angústia e brutalidade do personagem ao lado da família, da esposa e dos amigos.

A prórpia entrega de Santoro ao personagem, ao perder 12 quilos durante as filmagens de Heleno, evoca uma das interpretações mais antológicas do cinema, de um Robert De Niro que engordou 25 quilos para encarnar o pugilista que tornou sua vida, e tudo ao redor, insuportável.

Mas, ao contrário da obra-prima de Scorsese, e mesmo tendo a presença indispensável de Santoro, Heleno perde força na composição dos demais personagens, sobretudo da amante Diamantina, interpretada pela atriz colombiana Angie Cepeda, e da esposa, Sílvia (Alinne Moraes).

Aí é que vejo o principal problema do filme, que sobrepõe a boemia e o glamour à descida ao inferno pessoal-familiar de Heleno, como que evitando, a todo momento, ir mais fundo na vida de pai, mãe, irmãos do personagem que morreu demente, aos 39 anos de idade, em um manicômio de Barbacena, em Minas Gerais.

Heleno está em reapresentação no CineCena Unijorge. Consulte a programação no Em cartaz.