Habemus Papam ou o medo do ator de entrar em cena

Habemus Papam - pontocedecinema.blog.br

O grande ator francês Michel Piccoli no papel do cardeal Melville, em crise de pânico ao ser eleito papa

A ideia de um papa recém-eleito que entra em crise e se recusa a aparecer no balcão de seus aposentos e saudar os fiéis na Praça de São Pedro, por si só, paga o filme.

Em Habemus Papam, o cineasta italiano Nanni Moretti está em um terreno aberto à iconoclastia, mas se contém no humor eclesiástico que, enfim, dá o tom à fábula.

Muitos no conclave que reúne representantes religiosos do mundo todo para votação na Capela Sistina, no Vaticano, estão receosos. O escolhido de deus é o cardeal francês Melville (Michel Piccoli).

Em crise de pânico, ele logo terá à mão o professor Brezzi (Nanni Moretti), um psicanalista ateu, para tentar avançar e ascender, de fato, ao trono.

Há questões a se responder, ali, como: se deus ditou o voto para os cardeais, então não foi ele quem fez a escolha errada?

As incongruências partem daí e serpenteiam em um terreno dedicado ao sagrado, de onde afloram as fraquezas que, em tese, não deveriam estar ali, mas fora, no lugar do profano.

O psicanalista, que avança pouco na tentativa de curar o papa, também teve o seu santuário devassado (a sessão com Melville aconteceu aos olhos de todos) e ele então vai dessacralizar o templo dos cardeais.

Uma vez confinado, Brezzi põe todos a nu, com seus medos, angústias e tranquilizantes, em meio a um campeonato de voleibol, à espera da resolução da crise do novo sumo-pontífice.

O sumo-pontífice, por sua vez, agora levado a uma psicanalista que não sabe que ele é o novo papa, foge das garras do seu porta-voz (Jerzy Stuhr) e se deixa passar por um processo de sucularização nas ruas e esquinas de Roma.

Uma vez dessacralizado, Melville, que quando novo tentou carreira no teatro, se conscientiza de que, pelo menos no tocante ao lugar do sagrado, não sabe atuar, como lhe foi dito desde o início e conforme confessou à psicanalista antes de fugir.

Habemus Papam é um filme sobre o medo do ator de pisar no palco.