Girimunho, de Clarisse Campolina e Helvécio Marins Jr., mostra a vida de passagem na tela

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Dona Bastu, a octogenária Maria Sebastiana do belo filme Girimunho

Impregnado de calor humano, Girimunho, de Clarisse Campolina e Helvécio Marins Jr., é um desses filmes brasileiros que trafegam contra a corrente do cinema que se quer bem na pele de quem está na fila da disputa pelo maior número possível de cabeças frequentando suas imagens nas salas de exibição.

Misto de documentário e ficção, o filme, que obteve boa repercussão ao ser exibido em alguns festivais internacionais, como Veneza e Toronto, paga tributo à obra de Guimarães Rosa, ao se acomodar entre alguns moradores de São Romão, uma pequena vila mineira às margens do Rio São Francisco, e trazer à tona uma bela reflexão.

Girimunho se alinha a títulos como O Céu Sobre os Ombros, do também mineiro Sérgio Borges, e Avenida Brasil Formosa, do pernambucano Gabreiel Mascaro, em sua incessante recusa em dizer onde está a verdade, onde está o fato criado, transferindo ao espectador a tarefa de estabelecer pontes, criar elementos de ligação.

Trata-se de um ensaio universal que se detém na fronteira da invenção, ao acompanhar sobretudo a vida de dona Bastu (Maria Sebastiana), a octogenária senhora que acaba de perder o marido, vive com os três netos e se confronta com a morte com absoluta naturalidade, mas não sem aspereza e ternura na mesma medida.

Ao tempo em que trafega por esse Brasil profundo, que poderia ser o de uma pequena comunidade do Recôncavo baiano, ou uma vila de pescadores em qualquer lugar do mundo, o filme esbanja humor – em grande parte extraído da naturalidade de Bastu -, a despeito de seu corte seco, determinate, sério.

Girimunho traz momentos inesquecíveis desde os primeiros intantes, em que expõe as zonas escuras do universo tratado, em planos cinematográficos abissais na bela fotografia de Ivo Lopes Araújo. Da tela espocam fogos, luzes se confundem com a mais profunda treva. Um sem-número de afetividades e incertezas se desprendem voluntariamente de seus personagens.

Inesquecível o momento em que, incomodada com as aparições do marido morto, Bastu dispensa tudo o que sobrou dele, em um ritual de ressonâncias bíblicas, no rio que é a matéria, a base, o esteio, o sustento – a metáfora da vida que, assim como as roupas, os trastes e objetos a ele lançados, está de passagem na tela.