George Clooney revela face intrigante, triste e selvagem do poder

Tudo pelo Poder - pontocedecinema.blog.br

George Clooney e Ryan Gosling em Tudo pelo Poder, um dos principais concorrente ao Globo de Ouro

Quem pensa estar de pé, acautele-se para que não caia. A máxima bíblica cabe como uma luva no novo filme de George Clooney, Tudo pelo Poder, que concorre ao Globo de Ouro em quatro categorias – melhor filme (drama), diretor, ator (Ryan Gosling) e roteiro, escrito pelo próprio Clooney, tendo como parceiro Grant Heslov, baseado na peça Farragut North, de Beau Willimon.

O filme trata sobre os bastidores da corrida à presidência dos Estados Unidos, que tem o governador democrata Mike Morris, interpretado pelo próprio Clooney, como um dos candidatos. O Partido Republicano, aqui, é mero acessório. A luta pelo poder revela-se franca, no seio do Democrata, plena de golpes baixos, que vai encontrar seu momento espetacular no embate entre Morris e o assessor de imprensa Stephen Myers (Ryan Gosling), o principal personagem desse jogo.

Myers é o assessor da campanha de Morris, que tem como principal articulador o duro e temido Paul Zara, interpretado por Philip Seymour Hoffman. Jovem brilhante nos seus 30 anos, ele comete o erro de ceder ao encontro com o chefe de campanha do outro candidato democrata, Tom Duffy, interpretado por Paul Giamatti. Antes mesmo que o encontro vaze, o assessor tenta se redimir com Zara, mas os estatutos do poder não eximem, não perdoam, não franqueiam.

Interpretado com sobriedade por Gosling, Myers agora está nas mãos de Zara, da jornalista Ida (Marisa Tomei), que o pressiona para revelar o detalhe daquela história do encontro com Duffy, e, finalmente, de Duffy, a quem vai pedir guarida, sem caminho de volta, quando a corda arrebenta. Sua tábua de salvação será aquela mesma suposta ingenuidade e dedicação ao trabalho com Morris que o municiou com uma devastadora carta na manga.

Um providencial plano de emergência, sobre o qual não é bom nem mesmo falar, o conduzirá ao embate definitivo com Morris. O encontro dos dois, o jogo de luz, à contraluz, a entrada no “saloon”, remete-nos direto à zona de perigo mais poderosa e infalível do western norte-americano. Estaríamos, aqui, no mesmo terreno pantanoso do gênero cinematográfico por excelência conforme definido por André Bazin.

Magnífico, Philip Seymour Hoffman acendendo e tragando o cigarro antes de apagá-lo na parede e entrar no carro de Morris e dar-se conta de que agora é carta fora do baralho. E depois, conversando com Meyers, querendo saber como foi que aconteceu a grande virada no jogo. Há algo de familiar nisso – uma coisa para ser contada, nos mínimos detalhes, em uma rodada de cervejas na mesa de um bar. Cínico.

George Clooney, diretor de Confissões de Uma Mente Perigosa (2002) e Boa Noite, Boa Sorte (2005), dois filmes, no momento, referenciais sobre o embate e o manejo de bastidor, mostra-se habilidoso maestro, como em um jogo de marionetes, ao esgrimir mais uma vez personalidades em sua face mais intrigante, triste e selvagem.