Mascaro: “Transformação da paisagem humana”

 

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Mascaro: "Boi Neon acho um filme que foi amadurecido esteticamente há anos" Foto|: Divulgação

Leia a seguir entrevista concedida por e-mail com o diretor de Boi Neon, Gabriel Mascaro

Você sempre  se manteve em meio ao documentário e à ficção, mas a partir de Ventos de Agosto este outro lado, a ficção, está mais em evidência. É uma tendência natural em sua filmografia?
Não saberia afirmar se é uma “tendência”. Não consigo analisar meus trabalhos de forma distanciada. Mas curiosamente este filme Boi Neon é um trabalho de seis anos de pesquisa, e a semente é bem antiga. O filme correu em paralelo a vários outros trabalhos que aleatoriamente foram lançados primeiro, incluindo documentários e instalações. Vou trabalhando e amadurecendo vários projetos ao mesmo tempo e de repente eu consigo terminar um primeiro que o outro. Acho que não é tendência, mas o curso natural de como esse binarismo documentário/ ficção e esse planejamento de carreira não fazem muito sentido para mim.

Como surgiu a ideia de fazer Boi Neon,  em ambiente  em que coexistem  delicadeza e brutalidade?
O filme se passa numa região onde as atividades pecuárias e agrícolas agora dividem espaço com um grande polo industrial de confecção de roupas. Durante a pesquisa de escritura do roteiro, entrei em contato com o mundo dos vaqueiros que trabalham nos bastidores da vaquejada e conheci em especial um que trabalhava com o gado e a moda. Muito me marcou a forma como o vaqueiro ritualizava a limpeza dos rabos do boi e em seguida sentava na máquina de costura. E assim foi o ponto de partida para criar um personagem ficcional que acumula esta dupla jornada que mistura no ofício a força e delicadeza, a bravura e a sensibilidade, a violência e o afeto. No filme proponho não necessariamente a inversão de gênero, mas a dilatação destas representações. A partir da ritualização do ordinário, tento não fazer destes deslocamentos de gênero algo sensacionalista, mas sim normalizar essas curvas. E para muito além da psicologia dos personagens, eu engajo o filme através da presença corpórea dos personagens e em todo o entorno que esta coreografia é capaz de mobilizar enquanto experiência. O filme não segue necessariamente a jornada de um personagem protagonista, mas aposta na experiência performática enquanto potência. É um filme de personagens estranhos, de experiências intensas, mas pouco sabemos quem são essas pessoas e porque nos envolvemos com elas. O filme registra o cotidiano e as contradições mínimas de uma rotina de trabalhadores.

O cinema brasileiro vive uma expectativa: a possibilidade de unir qualidade artística ao gosto do público. Em BoiNeon você parece um pouco mais preocupado com isso. Essa é uma questão básica?
Acho que não seria uma preocupação minha de adequação de formato. Todos meus trabalhos eu adoraria que fossem vistos e comentados. Mas não significa que eu precise simplificar uma pesquisa estética para tal feito. Pelo contrário, Boi Neon acho um filme que foi amadurecido esteticamente há anos, e vem do acúmulo de outras experiências, e talvez seja meu filme mais radical. E quanto mais honesto mais isso transparece para o público. Eu não tenho como suprir esta expectativa do mercado nem dos críticos por um filme ‘no meio’, que vai reparar a esquizofrenia de ser  de “arte” e de “público” ao mesmo tempo. Isso não se calcula. Não vai se resolver isso nem tão cedo enquanto não democratizarmos os meios de comunicação no Brasil e garantir visibilidade necessária que os filmes precisam ter para avisar ao público que estes filmes existem. Só me resta ser honesto e sincero com o meu trabalho e torcer para que quem for ao cinema ver Boi Neon perceba isso, e recomende a um amigo.

Mas você também não abandona de vez a linguagem experimental. Há inserções como a mulher que dança com uma mascara de cavalo e as diversas possibilidade de leitura que se apresentam no filme. Acha que isso pode se tornar um complicador?
Não existe “complicador”. Complicador de quê? Não imagino que uma mulher com roupa de cavalo afastaria ninguém do cinema. “Complicado” é ter medo, é não ser honesto, é fazer o que se imagina o que as pessoas querem, e de repente o que elas querem não é o que se imagina. Acho arrogante falar de audiência como uma coisa amorfa. A audiência não é um bloco homogêneo. Cada experiência é única, é subjetiva, é singular, intransponível.

Você trabalha questões de gênero de modo surpreendente. O vaqueiro (Juliano Cazarré) quer ser  estilista, a mulher (personagem de Maeve Jinkings) dirige caminhão, a menina quer cuidar de bois. Como isso ocorreu, fazer um filme meio que desagregador dos estereótipos que envolvem o masculino/feminino?
O Nordeste foi apontado por políticos e economistas brasileiros nos anos 60 como a “região problema” do Brasil por causa do histórico de desertificação, fome, sede, fanatismo religioso e das revoltas populares.  Na mesma década, o cinema e a literatura foram buscar nesta região a alegoria da luta de classe e a revolução camponesa. O Cinema Novo se apropriou da região enquanto experiência que cristalizou até hoje alguns signos de representação, como a ideia de preservação das tradições culturais, da ideia de valentia quase sacralizada e puritana do homem trabalhador e na possibilidade deste homem culturalmente enraizado trazer novos valores para reparar a crise identitária dos centros urbanos. Hoje temos outro contexto no Brasil. A região cresceu economicamente de forma muito veloz, é cosmopolita, então o filme se alicerça num cenário contemporâneo de prosperidade econômica regendo novos signos, desenhando novas relações humanas, afetos e desejos.  É um filme sobre a transformação da paisagem humana. A ideia foi lançar uma nova luz sobre as transformações recentes do país a partir de um recorte narrativo que se segue da vida de um grupo de vaqueiros que vivem na estrada transportando boi para as festas da vaquejada, um dos maiores eventos de agrobusiness do Brasil. Tendo a vaquejada como palco alegórico destas transformações em meio à paisagem monocromática do Nordeste, eu pesquiso as cores que reluzem as contradições do consumo e dilato noções de identidade e gênero em personagens que convivem com novas escalas de sonhos possíveis.

O corpo é um elemento fundamental em Boi Neon. Sobretudo o masculino, que você parece querer dissecar.  Como vê a importância disso, em meio a uma realidade em que só o corpo feminino interessa?
Boi Neon para mim trás a ambiguidade que permeia o sentido político do filme. Os corpos no filme são corpos biolíticos alegorizados entre a escritura do ordinário e o holofote do espetáculo da cultura de consumo. É um corpo estranho que resiste e que sonha. É também um corpo translúcido, que se despe e que às vezes até ilumina na ambiguidade do neon. Tento iluminar este tema de forma que o filme possa revelar novos contornos, novos relevos, novas erupções, mostrando tanto a violência e o prazer habitando no mesmo corpo. A câmera perscruta os espaços em seus lentos movimentos em busca dos personagens de forma a encontrar o lugar do corpo, mais do que o lugar do rosto. Aproximar a câmera neste filme era um gesto de esvaziamento. Os planos gerais neste filme devolvem aos personagens a ideia de força,  presença, resistência. Os personagens do filme são seres simples, humildes, estranhos e diferentes, mas não querem fugir, e sim sonhar com novos devires naquele mesmo espaço.

Boi Neon já ganhou vários prêmios, entre eles o especial do júri, da Mostra Horizontes, em Veneza, e o de direção, no Festival de Marrakech. Como vê a importância dessas premiações?
Nada muda e tudo muda. O filme não mudou depois dos prêmios. O corte é o mesmo.  Vai continuar sendo difícil captar fundos para fazer um novo filme. Por outro lado, tudo muda no sentido que algumas pessoas que não ficariam sabendo do filme agora ficaram sabendo por causa da visibilidade que premiações trouxeram. E isso é maravilhoso. E eu desejo muito que o Boi Neon, feito com toda honestidade, sem concessões e com total entrega da equipe e principalmente do elenco, seja visto pelo máximo de pessoas possíveis. Mas tem limite, né? Não tenho grandes expectativas. Não temos nenhuma grande empresa de comunicação para investir na divulgação. Em relação ao retorno comercial de bilheteria, meu céu sempre foi pertinho do chão. Estou contando com o boca-a-boca militante de quem se sensibilizar pelo filme.

Você pensa em um carreira internacional? Qual será o seu próximo trabalho?
Estou muito feliz que o Boi Neon está confirmado em mais de 60 festivais em 40 países e distribuído comercialmente para entrar em cartaz em 15 países no segundo semestre de 2016.  Sobre pensar a “minha carreira internacional” ou a do filme, procuro não separar o Brasil do restante do mundo. Eu não confundo arte com nacionalismo. As pessoas estão no mundo para criar encontros, independente de onde nasceram, quando nasceram ou ondem escolheram viver. E os trabalhos, muito menos. Fico muito feliz em ver um filme simples como Boi Neon, sobre um grupo de pessoas em meio a um lugar em transformação, conseguir se comunicar com outras culturas. Meu próximo é uma série fotográfica sobre separações, chamado Desamar.