Flores do Oriente, de Zhang Yimou, mantém o interesse até o fim, apesar de se perder em grandiloquência

Flores do Oriente - pontocedecinema.blog.br

Bale em Flores do Oriente, painel suntuoso transcorrido no período da invasão da China pelo Japão

Algo se perdeu no Zhang Yimou de O Sorgo Vermelho, Amor e Sedução, Lanternas Vermelhas e A História de Qiu Ju. Não é que Flores do Oriente, que estreou nos cinemas na última sexta-feira, seja ruim. Pelo contrário, o filme mantém o interesse em boa parte. Sobretudo nos primeiros momentos, em que as meninas do convento e o personagem de Christian Bale atravessam a zona de conflito, em Nanquim, durante a invasão da China pelo Japão, em 1937, em sequência de arrepiar.

Logo me veio à mente a obra-prima do também chinês Chen Kaige, Adeus, Minha Concubina, com aquela câmera extremamente rapida e travellings velozes realçando a violência com que se capturavam os meninos para integrá-los à Ópera de Pequim. Não sem razão, Concubina, que aborda mais de 50 anos da história chinesa em quase três horas de projeção, tem um dos seus grandes momentos no período da invasão da China pelos japoneses, antes da Segunda Grande Guerra.

Mas o problema é que Yimou, em Flores do Oriente, exacerba o componente suntuoso de outros dos seus melhores filmes, como Herói e O Clã das Adagas Voadoras, para criar um painel de impacto visual que se esgota no sentido de espetaculosidade das coisas. Novamente, o sentimento feminino de determinação em uma história pintada do vermelho-sangue predominante em Zhang Yimou. Com a carga melodramática que vimos recentemente em outro filme do diretor chinês, A Árvore do Amor.

Entram em confluência naquela zona de conflito, inicialmente, o agente funerário alcoólatra norte-americano John Miller, interpretado por Bale, e as estudantes que, assim como ele, tentam se livrar das balas e explosões, como de gotas de chuva, e acorrem para o convento tido como único lugar seguro. Ali, o aventureiro vai tentar achacar um garoto que assumiu o lugar do padre morto. É quando chega ao convento o conhecido grupo de prostitutas do Rio Qin Huai, que, também em busca de proteção, involuntariamente, vai instaurar o conflito dentro do conflito com as alunas do convento.

Desse mar de sublevação, descortina-se uma inversão de papeis em cadeia, lembrando o mestre japonês Akira Kurosawa, que levará o conflito interno a um desfecho quase edificante. Não faltam momentos de heroísmo nesse filme grandiloquente de Zhang Yimou. O mais comovente deles talvez seja o do soldado chinês que leva um garoto ferido, moribundo, ao convento, retornando à praça de guerra logo em seguida, em ação suicida, para aniquilar vários inimigos japoneses.

Mas é no que deveria ser o foco principal – os fatos que vão se desdobrar na resolução dos conflitos dentro do convento – que o filme de Yimou se perde e se deixa eclipsar pela exuberâcia e espetaculosidade. Talvez por causa de Christian Bale, um ator que já demonstrou bons recursos em filmes como O Vencedor, que não opera muito bem o milagre da transformação, ao se imbuir do necessário espírito humanista fazendo-se passar por padre para tentar conduzir as meninas à redenção.

Falta também uma Gong Li no elenco, a atriz sedutora, de presença trágica impressionante, dos primeiros momentos de Yimou, que lhe escapou das mãos. Mesmo assim, o diretor chinês consegue fazer de Flores do Oriente um filme para ser admirado em quase duas horas e meia de projeção.