Filmes redefinem conceito de documentário

Laura - pontocedecinema.blog.br

Laura acompanha o furor da personagem-título, uma imigrante brasileira em NY


O Panorama Internacional Coisa de Cinema ganha corpo com a exibição dos dois primeiros longas concorrentes da Mostra Competitiva, na noite de ontem (20/1): o mineiro O Céu Sobre os Ombros, que ganhou os prêmios de Melhor Filme, Direção, Roteiro e uma menção especial do júri para os três personagens no 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro; e o paulista Laura, de Felipe Gamarano, que integra a série de documentários DOCTV Latinoamérica II. Ambos os filmes partem de uma espécie de redefinição do conceito de documentário para dialogar com o público.

Mais radical, O Céu Sobre os Ombros tem elementos de ficção. Utiliza três pessoas/personagens como intérpretes de si e cada um desfia sua história. Onde está a verdade, onde está o fato criado, cabe ao espectador estabelecer pontes, criar elementos de ligação ao observar o atendente de telemarketing Murari Krishna, que integra o movimento Hare Krishna e a torcida Galoucura, do Atlético Mineiro, o desempregado Lwei Bakongo, que vive às custas da mãe, tem um filho especial e é impregnado de desilusão e incerteza com relação à vida e a opção por ser escritor, e a transexual Everlyn Barbin, que é ao mesmo tempo acadêmica e profissional do sexo, e escreve cartas tão impregnadas de sentimentalismo quanto por citações de Foucault, Freud e Ovídeo.

O filme me parece um pouco alongado, necessitando de uma melhor decupagem para estabelecer identidade precisa com o ato criador, mas é impossível passar incólume pela a capacidade de enquadrar e conferir rara beleza, no caso do acompanhamento a Murari Krishna, a imagens tão batidas quanto às de torcedores emocionados diante da atuação de seu time em campo. Ou o inusitado de Lwei Bakongo revelar a um casal de amigos em um bar, enquanto tomam cerveja, que não chegará ao ano de 2010, e de Everlyn Barbin negociar um encontro sexual – só um boquete ou o serviço completo –, com um cliente já conhecido, da janela de um carro, para antes do Natal.

Permanências

Permanências integrou a Semana da Crítica em Cannes

Com corte mais dinâmico, e por isso mesmo capacidade de estabelecer um diálogo mais direto com o público médio de cinema, Laura acompanha o furor da personagem, uma imigrante brasileira que mora há 25 anos em Nova York e, mais que driblar as dificuldades (inclusive financeiras) peculiares a quem se mantém fora do seu país de origem, vive uma vida bombada de festas, badalações, compromissos sociais e freqüência em espetáculos e restaurantes caros da Big Apple. Laura parece uma personagem descolada dos feéricos anos 1970/80 para os nossos dias, mas não é apenas a sua energia, o seu deslumbramento, o que importa.

Amigo de Laura que chegou a Nova York para estudar, o diretor do filme, conforme confessou em bate-papo com o público logo após a sessão, de repente se viu no centro dessa vida agitada. Ao fazer o documentário, ele mesmo e membros da equipe entraram literalmente na dança e foram para a frente das câmeras. O resultado é mais do que um documentário nos consegue dizer, revelando a relação de amizade da personagem com o diretor, com pontos de investigação sobre a vida pregressa e atual de uma mulher que quer o tempo todo andar, seja no plano real ou na fantasia, de braços dados com o sucesso.

CURTAS-METRAGENS – Um pouco desse jogo de cena entre diretor e pessoa retratada, aqui num ato revelador das relações familiares, é o que nos propõe outro filme da noite, o curta Oma (SP), em que Michael Wahrmann filmou em preto e branco suas visitas à avó, no Uruguai, em diálogos cortados, breves, em que sobressai a dificuldade de entendimento, porque a mulher de 97 anos fala o tempo todo alemão, com brevíssimos diálogos em língua espanhola.

A relação familiar também está no centro de Canoa Quebrada (SP), mas aqui o diretor é, ele mesmo, o centro das atenções, o discurso criado com a câmera. Ele se coloca e se enquadra para narrar sua viagem ao Paraná para conhecer o pai – cuja identidade nunca foi revelada pela mãe –, que, quando criança, pensava que fugiu em uma canoa quebrada. Tudo isso perpassado por humor, desde o encontro revelado por meio de uma gravação até o desfecho, com uma ligação telefônica feita para uma avó no além.

Permanências, do mineiro Ricardo Alves Junior, integrou a Semana da Crítica do último Festival de Cannes. Sua natureza é mais estranha, estabelece um diálogo difícil com o público ao focar momentos de personagens do conjunto habitacional IAPI, em Belo Horizonte, com planos fixos das pessoas e suas relações com o espaço, o lugar que cada um ocupa no mundo. Quando assistia não apenas a Permanências, mas O Céu Sobre os Ombros, criei uma relação mais de ódio do que de prazer.

Mas no caso de Permanências não conseguia parar de pensar na criada de Gritos de Sussurros, de Ingmar Bergman, que, de tão dedicada às irmãs, uma delas moribunda, naquela mansão dominanda pelo vermelho, tinha pouco tempo para si. E lembrei de quando ela está parada, rezando, com o cotovelo à mesa, tendo ao lado uma bandeja de frutas e de repente se mover e pega e morde uma maçã, impregnando de vida aquela natureza-morta. E entendo as correlações de Permanências com as artes e a necessidade de um entendimento público de que para cada tipo de filme é necessário inventar um novo olhar.

Menos árido é o curta Mens Sana in Corpore Sano (PE), de Juliano Dornelles, que investiga com rigor o cotidiano de um fisiculturista em sua determinação narcisística em moldar o corpo perfeito. Sintomático, revelador mesmo, o momento em que ele frequenta uma boate e permanece imóvel observando a dança do poste e outras performances da mulher, nua, em sua frente.

Na sexta-feira, o Panorama apresentou ainda dois curtas, além de Trabalhar Cansa, este fora da competição. Uma Primavera (SP), de Gabriela Amaral, é o cinema narrativo, ficcional, em essência, ao trazer à tona o momento em que uma mãe leva a filha para comemorar o aniversário de 13 anos em um piquenique no parque e descobre que não se deu conta de que a garota já era uma mocinha. O outro, Ela Morava na Frente do Cinema, tem a ver com as reminiscências do diretor, Leonardo Lacca, de Pernambuco, que, tomando como ponto de partida fotografias que lhe caíram nas mãos, depois de tantos anos, cria uma história envolvendo duas garotas e o destino dado ao cinema que ficava em frente de sua casa, quando criança.