Filme que mostra a trajetória de Antônio Pitanga estreia na quinta-feira (6 de abril)

Ator baiano retorna a São Joaquim, onde filmou A Grande Feira e Sol Sobre a Lama,
em ação de lançamento do documentário que chega a 17 salas de cinema do país
pontocedxecinema.blog.br

O ator trabalhou com diretores representativos como Glauber Rocha e Cacá Diegues Foto: Divulgação

Pitanga, agora, não é apenas um nome. É o filme que retoma a história do ator baiano, nascido em 1939, cuja trajetória de luta se confunde com o Cinema Novo e o próprio cinema brasileiro. Dirigido por Beto Brant e a filha de Antônio Pitanga, Camila, o documentário, premiado pela crítica como Melhor Filme Brasileiro da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, chega a 17 salas do país na próxima quinta-feira.

Mas, antes, o ator estará nesta terça-feira, às 19 horas, na Feira de São Joaquim, um lugar mítico em sua carreira, onde vai rever velhos conhecidos, para uma ação  promocional do longa: a exibição em um saveiro ancorado na Baía de Todos-os-Santos, com as velas abertas, do trailer de Pitanga e dos curtas A Feira – Patrimônio Imaterial, de Fabíola Aquino, e O Velho Rei, de Ceci Alves.

Agradecer
“Água de Meninos (hoje Feira de São Joaquim) tem um significado muito grande em minha vida. Não só eu fiz os filmes lá como fui interno do Colégio São Joaquim, praticamente em frente à feira. Voltar ali é não só agradecer  essa oportunidade de ter feito grandes filmes como é A Grande Feira (Roberto Pires, 1961) e Sol Sobre a Lama (Alex Viany, 1963), mas volto a esse lugar de coração aberto para agradecer, agradecer por essa carreira tão boa, tão fantástica que a Bahia me deu”, afirma Antônio Pitanga.

A declaração pode parecer hiperbólica, mas é o reflexo do próprio Pitanga, que incorpora de forma incomum, com muita alegria e malícia, a pele de homenageado no documentário de Camila e Beto. Nascido Antônio Luiz Sampaio em Salvador em 13 de junho de 1939, o nome Pitanga vem do personagem que interpretou em Bahia de Todos os Santos, o controvertido filme que Triguirinho Neto fez em 1959/60 em Salvador.

De lá para cá foram dezenas de filmes em que trabalhou tendo como um sinal determinante o inconformismo, a revolta de personagens como o Firmino de Barravento (1962), primeiro longa de Glauber Rocha, o Chico Diabo de A Grande Feira, ou o próprio Cristo Negro glauberiano de A Idade da Terra (1960). Um traço decisivo que assume também com bom humor em Pitanga, ao visitar os amigos diretores, atores, compositores, cantores para recompor a sua trajetória.

Galante, paquerador
São histórias do cinema, do teatro e da televisão em que aparecem nomes como Cacá Diegues – com quem fez filmes como Ganga Zumba (1964), A Grande Cidade (1966), Quando o Carnaval Chegar (1970) e Quilombo (1984) –, Neville D’Almeida (Jardim de Guerra, 1970), Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola, Zé Celso Martinez Corrêa, além dos filhos Camila e Rocco Pitanga.

Uma veia de galante e paquerador perpassa o filme, sobretudo nos bate-papos com as mulheres. Maria Bethânia sinaliza sua fama de namorador. Um cheiro de perfume toma conta do ar.  Ittala Nandi não fica atrás. Até mesmo com sua atual mulher, a deputada federal Benedita da Silva, o conquistador mostra a pele.

Antônio Pitanga, ele mesmo, conduz com mãos livres a trajetória do homem que assumiu a guarda dos dois filhos (sua ex-mulher, a modelo e atriz Vera Manhães teve problemas de saúde), mas não ficou impedido de prosseguir com a carreira brilhante no cinema.

“É uma homenagem ao Pitanga, através da cinematografia, mas é também uma homenagem ao cinema brasileiro e a esses diretores que criaram o Cinema Novo”, afirma o ator na entrevista, relembrando seu caminho de lutas políticas contra o racismo, pelos direitos humanos, que ressoam no filme notadamente nas conversas com Milton Gonçalves, Léa Garcia  e Ruth de Souza.

Incendiado
Antônio Pitanga assume o filme como uma entidade, um orixá que desbrava caminhos e se mostra, além de galante, malandro no bom sentido e bem-humorado, com um ‘jeito incendiado’, nas palavras da própria Camila Pitanga, ao lembrar o que motivou a realização do documentário.

“A ideia partiu de um encontro entre Beto Brant, meu pai e eu. A gente fez o longa Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2011). Meu pai fez uma participação e Beto ficou incendiado com as histórias que ele contava e principalmente como contava aquelas histórias”.

Conhecido diretor de longas ficcionais em que a violência, os conflitos existências e o desejo estão na linha de  frente, Beto Brant agora se mantém em um outro registro. A mão do diretor reconhecido por filmes como Os Matadores (1996), O Invasor (2001) e Cão Sem Dono (2007) está quase invisível pela valorização do material humano de que dispõe.

“O Pitanga não é um cara do ressentimento, do rancor, ele é um sujeito do território ocupado, do combate. E ele faz isso com muita alegria, o que não tira a seriedade do que fala”, afirma o cineasta: “Ele está sempre empenhado em se colocar em viver o presente, sempre disposto ao diálogo”, completa Beto Brant, que dirigiu um dos episódios da série documental Se Cria Assim, exibida no canal Arte 1 e capitaneada pelo pernambucano Cláudio Assis.