Se Beber, Não Case 2 é um filme dispensável

Se Beber Não Case 2 - pontocedecinema.blog.br

O macaco rouba a cena na segunda versão

Entre as piadas está aquela do cara que, depois de uma noite de esbórnia, descobre que a mulher com quem transou na realidade era um travesti. E ele fica enojado, tem acessos de vômito e é consolado pelos amigos com tapinhas nas costas e frases do tipo: “Com o tempo você esquece”. Quem sabe em conversa de botequim de 15ª categoria, mas nem no humorístico Zorra Total é possível ouvir mais isso.

O filme em questão é Se Beber, Não Case 2. O cara é o dentista Stu (Ed Helms) e os amigos são Phil (Bradley Cooper) e Alan (Zach Galifianakis). Desta vez eles estão na Tailândia para o casamento de Stu e não conseguem evitar vexame semelhante ao que protagonizaram há dois anos, e do qual saíram incólumes, em Las Vegas, para onde foram em viagem de despedida de solteiro de Doug (Justin Bartha).

Doug agora é um homem casado. E bem casado. Perdoado pela esposa, não poderia se dar ao luxo. Reduzido a mero coadjuvante, ele vai apenas segurar as pontas e tentar aparar as arestas enquanto os amigos não se resolvem – tentam se livrar dos problemas e descobrir o que aconteceu com eles depois de tomar cervejas no hotel à beira da praia. O casamento está prestes a acontecer, o sogro não suporta Stu e o jeito é dar uma desculpa fajuta, dizendo que os três prolongaram a pescaria com o irmão da noiva tailandesa, o adolescente Tedy (Mason Lee), que é o desaparecido da vez.

LOUCURAS – Stu é o mais louco. No filme anterior ele acordou sem um dente, que arrancou com um alicate. Agora ele aparece com um tribal tatuado na cara. Phil mostra ser um pouco mais sensato: nos dois filmes faz loucuras, mas sempre tenta equilibrar as coisas. Alan, o mais engraçado, é caso de internamento. Vive como se fosse um menino de 5 anos de idade. Os três têm que procurar Tedy e juntar os cacos que encontram de manhã num pardieiro em Bangcoc.

Se beber, Não Case

Na versão anterior, os amigos encontravam uma criança

O dedo arrancado do garoto desaparecido, um macaco superdescolado que usa uma jaqueta com a estampa da língua orgasmática dos Rolling Stones e o gângster tresloucado Mr. Chow (Ken Jeong), que tem o corpo escondido em um freezer depois de uma aparente overdose, são algumas senhas para que os amigos finalmente saiam dessa. Se Beber, Não Case 2 é politicamente incorreto à exaustão. Provoca algumas risadas, mas não se resolve bem em alguns momentos e perde em inventividade para o primeiro.

A primeira versão, que também não é lá grande coisa, tinha alguns méritos: resolvia-se logo, dava a impressão de que se tratava de uma brincadeira vivida em apenas alguns minutos, com a introdução em que mostrava a noiva tentando localizar, pelo celular, o futuro marido e os amigos, o contato de Phil dizendo que eles tiveram problemas e que não conseguiriam chegar a tempo para o casamento e o flash-back, logo em seguida, seguindo a trilha de loucuras cometidas pelo grupo durante a farra.

ALTOS E BAIXOS – A nova versão se perde logo no início, com uma longa introdução mostrando uma reunião em que é apresentada a família da noiva, com discursos constrangedores do pai e de Alan sobre o noivo. O filme recupera o pique, mas vai sendo levado entre altos e baixos (mais baixos) com situações que se valem (assim como fez com a Las Vegas dos sonhos do filme anterior) de estereótipos que alimentam o preconceito contra a Tailândia.

A incorreção política seria um favor contra os exageros, e até mesmo a intolerância, de uma sociedade que toma medidas extremas em prol do exercício pleno de cidadania e civilidade. Mas ser politicamente incorreto significa também ter um senso crítico aguçado, perspicaz, consciente da necessidade de zelo. Saber separar o joio do trigo, portanto.

Se Beber, Não Case, as duas versões, não dá a mínima. Os adultos agem como adolescentes que ainda não se desvencilharam dos sintomas da infância. Mesmo em uma comédia, a falta de uma visão mais aguçada, com roteiro contemplando piadas mais inteligentes e personagens, em algum momento, se deparando com o sentido grave da vida, é fatal . Só falta arranjar agora casamento para Phil e Alan. Argh!