Um exemplo do cinema incorrigível de Claude Lelouch

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Esses Amores, de Claude Lelouch, marca os 50 anos da carreira do cineasta francês

Esses Amores está sendo anunciado para uma única sessão nesta quarta-feira, mas volta a cartaz, diariamente, na sexta-feira, no circuito SaladeArte, em Salvador. Aliás, em exibição já há algumas semanas, o filme é de Claude Lelouch. Um incorrigível Lelouch, cineasta que pelo menos desde que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com Um Homem, Uma Mulher (1966), há mais de 40 anos, portanto, não se inibe com os detratores, que o acusam de superficial. E é como uma resposta aos que condenam sua arte que podemos ver Esses Amores, seu 43º filme.

Lelouch cruza várias histórias, como é de praxe em seu cinema, notadamente o monumental Retratos da Vida, um dos grandes sucessos dos anos 1980, e faz uma homenagem não apenas à sétima arte, mas ao espetáculo, à música, ao amor, sobretudo ao amor, uma constante temática. É por isso que falamos de um incorrigível Lelouch, que, com sua câmera solta, leve e livre de amarras, investiga a vida de Ilva Lemoine (Audrey Dana), filha de uma atriz italiana de filmes pornôs, como uma espécie de Lola Montès do século XX, aquela atriz, bailarina e cortesã que escandalizou a Europa do século XIX e foi tema de um filme de Max Ophuls.

Pois é como em um carrossel que pontificam as paixões, execrações e tragédias de Esses Amores, de certa forma parecido com aquele filme realizado em 1955. Mas, afirme-se, guardadas as devidas proporções e diferenças de épocas e estilos – pois Lola Montès, de Ophuls, é uma obra-prima –, Lelouch sustenta o filme sob aquela constante temática. E se existe aquela constante, portanto, Esses Amores não poderia deixar de se situar em terrenos movediços e flutuantes indicados pelo próprio nome. São Esses os Amores da vida, da trajetória daquela mulher que, logo no início, sabemos que está sendo julgada por um crime que será revelado apenas na segunda metade do filme, em uma sequência em homenagem ao mestre do suspense, Alfred Hitchcock.

O que dizer dela, a mulher que não pensa duas vezes em procurar um oficial nazista para livrar da morte seu padrasto acusado (e realmente culpado) de um atentado a bomba? E que se torna amante daquele oficial em plena França ocupada pelas tropas de Hitler? E que logo depois ama dois homens ao mesmo tempo e praticamente decide o destino de quem ficará com ela ao escolher, entre os dois, no cara ou coroa? Tudo isso e muito mais, Lelouch atravessa o século XX com uma história arrebatadora plena de citações cinematográficas e musicais em duas horas de filme.

Auto-referente, o cineasta francês emparelha Esses Amores com sua trajetória e não se furta ao prazer de mostrar, no final, cenas de grande parte dos filmes que fez, ao longo de uma carreira de 50 anos inaugurada, em 1960, com o curta Le Propre de l’Homme. Pode não ser grande, mas Esses Amores, como tantos outros, encanta porque é a síntese de uma vida, o resumo de paixões que o sustentam como um anátema, uma condenação mesmo, da obra de arte perfeita, pura, desprovida de arestas que, enfim, querem impingir ao cinema, a Lelouch.