Enigmático, intranquilo e perturbador David Lynch

Transcendendo  Lynch - pontocedecinema.blog.br

Lynch lançou no Brasil, em 1988, o livro Em Águas Profundas

O próprio David Lynch aparece como contraponto ao seu cinema intrigante em Transcendendo Lynch, filme que está em cartaz no Unibanco Glauber Rocha. O documentário, realizado por Marcos Andrade quando o diretor de Veludo Azul esteve no Brasil, em 2008, para lançar o livro Em Águas Profundas e divulgar a Meditação Trancendental, do qual é adepto desde que realizou Eraserhead, em 1977, seu primeiro longa-metragem, revela um Lynch sereno e disposto a falar. Mas pouco interessado em expressar o real significado das imagens que povoam títulos como O Império dos Sonhos.

Embora Lynch se mantenha o tempo todo esquivo a interpretações, respondendo com sonoro, mas bem-humorado, não a perguntas sobre se poderia falar, ou dizer se determinadas leituras de cenas de seus filmes estavam corretas, o real sentido de suas imagens ressoam a cada momento do filme. Revelado, meio que de esguelha, por um lado oblíquo, portanto, o específico cinematográfico do autor.

As pessoas acham que não entendem o seu cinema, mas, acredita Lynch, as ideias aparecem quando elas começam a refletir e discutir. E qualquer interpretação, nesse sentido, é aceitável, comenta ele. “Não precisamos de nada além da obra. O filme deve se bastar”, prossegue o diretor, que assegura, surpreendentemente, que ele mesmo tem que estar bem para criar obras tão estranhas.

CAIXINHAS DE SONHOS – Negar uma explicação para a obra, aliás, não é particularidade de David Lynch apenas. Há um momento em que um interlocutor tenta desvendar a enigmática caixa que aparece em Mulholland Drive (A Cidade dos Sonhos), o que lembra as investidas infrutíferas feitas ao espanhol Luis Buñuel sobre o significado de sua obra. Inclusive em relação à caixa de música recorrente em A Bela da Tarde.

O motivo aparente em A Cidade dos Sonhos talvez seja exatamente esse. Estabelecer uma ponte com o cinema surrealista de Buñuel, o que, aliás, é uma das referências da obra de David Lynch. Do mesmo modo que Buñuel e Lynch não nos deram explicações sobre as caixinhas, para Federico Fellini, o pavão que rouba a cena em uma das mais belas sequências de Amarcord era apenas um pavão que apareceu no set, tornando todos tão deslumbrados com a inusitada presença.

O problema com relação à interpretação de um filme, ou qualquer obra de arte, é tentar que o autor corrobore com essa ou determinada leitura. É o que parece querer dizer David Lynch a todo momento. E o que também pareciam querer dizer Fellini e Buñuel: já fizemos a nossa parte, trace você mesmo o seu caminho. A obra está ali, em um campo aberto, dando asas aos sonhos.

Transcendendo Lynch compartilha material tão farto quanto imprescindível, filmado com certo rigor, dispondo de momentos esclarecedores sobre um dos autores de cinema mais importantes da atualidade. Mas Marcos Andrade poderia ser menos reverente à ideia de dar prioridade aos caminhos de Lynch no Brasil, pura e simplesmente, porque nascem dali, da base do interesse do cineasta – o lançamento do livro e a divulgação da prática da Meditação Transcendental –, as linhas para compreender, de certa forma, esse cinema tão enigmático, intranquilo e perturbador.