David Cronenberg transfere sua experiência com o risco e o perigo para a vida de Carl Jung

Um Método Perigoso - pontocedecinema.blog.br

Keira Knightley como Sabina Spielrein e Michael Fassbender no papel de Carl Jung

Estamos em 1904. O jovem Carl Jung (Michael Fassbender), no início do século 20, atua em uma clínica psiquiátrica de Zurique e recebe como paciente Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma judia russa em crise de histeria. A garota tem por trás de si uma carga, um significativo histórico familiar com origem no sofrimento impregnado de prazer e culpa que lhe provocavam, quando criança, as constantes surras do pai.

Jung conhece Sigmundo Freud (Viggo Mortensen) e juntos iniciam uma íntima colaboração clínica. Mas as ideias sobre a vida mental do indivíduo vão paulatinamente se conflitando, dadas as diferenças inclusive de classes sociais entre os dois, até sucumbir diante das divergências em relação ao que cada um acreditava como determinante em relação à pulsão sexual.

Nessa espiral está Spielrein, tornada amante de Jung.

Eu estava lendo Tudo Sobre Cinema, interessante guia editado por Philip Kemp, quando me deparei com a citação de uma frase de Jung. Algo como: do mesmo modo que nas histórias de detetive, o cinema torna possivel a experimentação, sem perigo, de “toda a empolgação, a paixão e o desejo que devem ser reprimidios no ordenamento humanitário da vida”.

David Cronenberg, o homem que jogou dois brilhantes cientistas dentro de uma teia de sentimentos trágicos, irreconciliáveis, vítimas de sua própria investigação, em Gêmeos – Mórbida Semelhança, seu melhor filme, não deixaria Jung passar icólume. Porque todo filme de Cronenberg é uma experimentação, um perigo, um risco – inclusive Um Método Perigoso.

O cineasta Canadense está aí para nos dizer que Jung, ao contrário do que pensava – pelo menos em certo sentido e em algum momento de sua vida -, viveu como se assumisse os arrebatamentos e provocações que achava que deveriam ser resguardados.

O último plano de Um Método Perigoso define bem o filme.

1913. A câmera se aproxima francamente do rosto de Carl Jung, enquanto ele jaz fatigado em uma poltrona no jardim de sua casa, como se concentrasse a agonia do mundo. É uma espécie de premonição da guerra e do nazismo.

Mas também um adeus, em definitivo, àquele rumoroso caso com Sabine que, a partir de então, ele, que se tornaria o maior psicólogo do mundo, como o define Cronenberg, pelo menos em tese, só poderia viver dentro daquela sala escura de cinema.