Em busca de versos firmes e caudalosos

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A atriz Jeong-hie Yun no papel de Mija, em Poesia

Mija, a mulher que sofre de mal de Alzheimer em Poesia  - filme dirigido pelo coreano Chang-dong Lee, que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes do Ano Passado -, além de cuidar da saúde, tem um outro grande problema para resolver: conseguir uma soma em dinheiro alta para juntar-se aos pais que querem comprar a liberdade dos filhos acusados, assim como seu neto, de estuprar e levar à morte uma colega de escola.

Durante todo o tempo ela se move e parece não se impressionar tanto com tudo que passa, exceto com a morte da garota, que se atirou da ponte do rio da cidade, e com a urgência de encontrar uma forma poética ideal para se expressar e, quem sabe, que isso lhe possa indicar um sentido na vida.

Vejo aqui uma certa influência do Kurosawa de Madadayo, o canto do cisne do mestre japonês, e Viver, que acompanham a trajetória de homens que vivem ou pensam estar no apagar das luzes. Mas me lembro, sobretudo, de Qiu Ju, a maravilhosa personagem de um dos filmes mais esquecidos do chinês Zhang Yimou, A História de Qiu Ju, e a sua determinação em buscar, nas diversas instâncias do país, punição para o homem que humilhou o seu marido.

A luta de Qiu Ju parece inglória, porque, antes da punição, conseguida depois de tanta burocracia, vem o perdão. E é ela mesma quem perdoa. No périplo de Mija, vencidos os desafios, a certeza de que a personagem vai encontrar o momento certo para que a poesia jorre e mova-se, da mesma forma que ela e o rio, caudalosa.