Em As Aventuras de Pi, Ang Lee refugia-se na lenda que substitui a lenda como verdade imediata

As Aventuras de Pi - pontocedecinema.blog.br

Filme de Ang Lee que concorre a três Globos de Ouro, As Aventuras de Pi é a principal estreia da semana

Filme de aventura que se pauta em uma transcendência traduzida pela busca da verdade e a presença de deus, é mais uma comprovação de que o taiwanês Ang Lee, ao lado de nomes como Clint Eastwood, tem o seu lugar no panteão dos cineastas que reinventam o cinema clássico hollywoodiano.

Se John Ford consagra o mito como melhor que a realidade, em O Homem Que Matou o Facínora (1962), Ang Lee, ao adaptar o livro de Yann Martel, A vida de Pi, refugia-se de modo inflexível na lenda que substitui a lenda como verdade imediata, e única plausível para o desfecho do filme, sobre o qual é melhor não se alongar.

O garoto indiano Piscine, o Pi (Suraj Sharma) de As Aventuras de Pi, vive uma experiência monumental em sua busca pela elevação espiritual, aos 17 anos, em um primeiro momento ao lado de uma hiena, uma zebra, um orangotango e um tigre de Bengala faminto, em um bote salva-vidas, como único sobrevivente do naufrágio do navio em que viajava com os pais e os irmãos levando os animais do zoológico da família para o Canadá.

Ele é um inconformado com a necessidade da existência de diversos caminhos, ao compreender que todos levam à experiência divina.

A aparição de peixes voadores que infestam o bote e possibilitam a manutenção da vida, quando não há mais o que fazer, de um certo modo evoca o cinema de John Huston e o sinal de reconciliação do capitão vivido por Humphrey Bogart com a missionária interpretada por Katharine Hepburn em Uma Aventura na África, 1951), que navegam rio abaixo em um pequeno barco a motor, agarrando-se à ínfima possibilidade de sobrevivência e em eterno conflito – os dois entre si e ambos contra os alemães em uma Africa arrasada pela guerra.

Aliás, John Huston, que filmou em 1956 o romance Moby Dick, de Herman Melville, levando às últimas consequências a obsessão do capitão Ahab (Gregory Peck) pela captura da baleia que o desfigurou, parece ser ao mesmo tempo um motivo de injúria e exaltação para Ang Lee.

O que em Huston quase sempre se transforma em nada (recorde-se, como exemplo, a riqueza que se vai com a poeira, no final de O Tesouro de Sierra Madre, 1946), uma forma de constatar a inutilidade da aventura e da vida, em Lee surge como representação da necessidade de preservação da própria natureza, pelo homem.

Em As Aventuras de Pi, esse instinto ganha acentos de nobreza, porque vai se concretizar no confronto com e em prol da natureza selvagem. E se manifesta ainda na necessidade de Pi, de volta à civilização, reinventar a verdade ou a lenda.

É nesse momento que o cineasta taiwanês radicado nos Estados Unidos encontra-se com sua força criadora, que o faz primus inter pares em Hollywood, e põe-se em acordo com o sentimento de perda e de inutilidade predominante no cinema hustoniano, visto em filmes tão díspares quanto O Falcão Maltês (1941) e À Sombra do Vulcão (1984).

O desconforto que sobrevém ao garoto em sua solidão, ao lidar com o tigre, na monumentalidade do oceano, e ao ter que refazer sua história, de volta à terra firme, é o mesmo do velho taiwanês inadaptado à vida na América, em A Arte de Viver (1992), do rapaz gay que monta um Banquete de Casamento (1993) para satisfazer o pai, e do cowboy de O Segredo de Brokeback Montain (2005), corroído pela constatação de que foi subtraído do âmbito social, sobretudo familiar, em seu amor pelo companheiro morto.