Stefan Ruzowitzky resolve traumas de infância, em A Fuga, com banquete violento no Dia de Ação de Graças

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Reproduzo aqui, com algumas modificações, comentário que fiz, marcando minha estreia nesta quinta-feira com uma coluna no programa Multicultura da Rádio Educadora FM.

A FUGA – Um filme interessante, apesar de se resolver com alguns exageros, sem humor, e com situações previsíveis. Trata-se de A Fuga, de Stefan Ruzowitzky, diretor de Os Falsários, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2008.

Depois de fazer sucesso com uma história muito boa de falsificação de libras, passada em campos de concentração nazistas, o diretor austríaco aparece com um thriller impactante. Em A Fuga, ele acompanha um casal de irmãos por uma estrada em direção ao Canadá, em meio à nevasca, depois de um grande roubo contra um cassino.

São eles Addison e Liza, interpretados por Eric Bana e Olivia Wilde, que sofrem um acidente de carro e se separam quando o rapaz mata o policial que tenta socorrê-los. Enquanto ele vai deixando um rastro de crimes durante a fuga, tornando-se cada vez mais violento, ela pede carona ao ex-boxeador Jay (Charlie Hunnam), que acaba de sair da prisão e matar um desafeto.

Addison e Liza, cujas ações levam a acreditar em uma relação incestuosa, têm um passado familiar turbulento, com histórico de violência contra ela, que foi amparada, na infância, pelo irmão. Jay não fica atrás: mantém um diálogo bem perturbado com o pai, interpretado por Kris Kristofferson, sob o gesto conciliador da mãe, Sissy Spacek.

Mas antes de cruzar a fronteira com Liza, por quem já está apaixonado, Jay precisa passar o Dia de Ação de Graças com a família. Como se sabe, trata-se de um dia sagrado nos Estados Unidos e no Canadá.

A Fuga é um thriller movimentado, que surpreende com alguns sustos e muita violência. Tem algo dos Irmãos Coen aqui, outro tanto de Roman Polanski ali; longe, porém, de reproduzir a excelência dos diretores de Fargo e O Escritor Fantasma. O frio, o gelo, a neve não são meros elementos decorativos.

Ruzowitzky trabalha bem os trânsitos dramáticos, que são as passagens de cenas, situações e sequências que se juntam para dar o rosto final ao filme, seu desenlace. Esses trânsitos têm a ver primeiro com a fuga de Addison sozinho; depois, com o encontro da garota com o ex-boxeador; e ainda com os pais de Jay, que o aguardam em casa.

Incluem também um xerife que menospreza as qualidades investigativas da filha e os policiais atônitos que seguem o rastro de sangue. Tudo concorrendo para um banquete nada convencional. É quando a paz, o pensamento religioso, a harmonia, as orações e o espírito de solidariedade daquele dia são substituídos pelo horror.

Parece uma sessão de terapia em grupo, com regressão e tudo. O filme já havia apontado para isso desde sempre com suas crianças desamparadas. Todos, ali, ruminam traumas de infância. E vão tentar resolvê-los, ou complicá-los mais ainda, bombasticamente, no final, ao redor da mesa farta no Dia de Ação de Graças.

FICHA TÉCNICA
A Fuga (Deadfall, 2012)
Diretor: Stefan Ruzowitzky
Elenco: Eric Bana, Olivia Wilde, Charlie Hunnam, Sissy Spacek, Kris Kristofferson, Kate Mara, Treat Williams e Allison Graham
Produção: Shelly Clippard, Ben Cosgrove, Mark Cuban, Gary Levinsohn, Todd Wagner
Roteiro: Zach Dean
Fotografia: Shane Hurlbut
Trilha Sonora: Marco Beltrami
Duração: 96 min.
Ano: 2012
País: EUA
Classificação: 16 anos