Eduardo Coutinho dá ouvidos e materializa as queixas de uma nação

As Canções - pontocedecinema.blog.br

Histórias são cantadas e desfiadas em um palco escuro como em uma seleção de elenco para a estreia

Eduardo Coutinho quer dizer que, mais do que ouvir, é preciso escutar atentamente. E não apenas as canções e as pessoas que cantam e contam suas histórias naquele palco de fundo preto, fechado por cortinas, em que se encontra uma única cadeira destinada a receber candidatos como em uma escolha de elenco para a preparação da noite de estreia.

É preciso ver, enxergar aqueles fiapos de memória relatados ao longo de As Canções, o novo filme do cineasta de Cabra Marcado para Morrer (1984). O cenário pede que assim seja, com o fundo escuro pondo a nu os que estão ali e relatam sua tristeza, mas também nós, os que escutam aquelas trajetórias de vida e as recompõem nos fios da imaginação.

Todos os filmes, e toda arte, têm seus cantos escuros – uns menos, outros mais –, que, enfim, vão definir sua complexidade, a partir do momento que nos obriga, a nós que vemos, a refazer seus momentos para chegar àquilo que achamos que seja a verdade absoluta que buscamos.

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Coutinho, o diretor de As Canções e Edifício Master

É por isso que a tendência é de rejeição, entre boa parte do público, de um filme como Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami, que nos reivindica (muito mais do que a compreensão sobre o encontro de um casal que inicia uma história) a totalização da trajetória que nos é apresentada apenas no seu começo e logo adiante como uma relação completa de 15 anos que ao mesmo tempo se extingue e recomeça.

Os relatos verdadeiros, como eles se exprimem, em sua base documental, ganham sentido então naquilo que o espectador não mais apenas ouve e vê, mas recria, moldando a natureza ficcional.

As Canções pode não ser o melhor de Eduardo Coutinho, mas é com este filme que ele cristaliza, da forma mais simples possível, uma fórmula que desenvolve há anos e que tem a ver com aquele dom de escutar para fazer enxergar.

Não sei se há algum cineasta que se mantenha nesse âmbito integral que nos lembra um sacerdócio exercido com equipe e câmeras em punho para dar ouvidos às queixas, de ordem emocional e material, de uma infinidade de segmentos de uma nação.

É só parar e ver, atentamente, o que Eduardo Coutinho tem para nos dizer em títulos como Santo Forte (1999), Babilônia 2000, Edifício Master (2002), Peões (2004), O Fim e o Princípio (2005), Jogo de Cena (2007) e Moscou (2009).