Paralelas, um cão e o amor nas ruas de Buenos Aires

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Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar Lopez) em Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Diz a geometria que é no infinito onde as paralelas se encontram. Então, em Medianeras, filme de Gustavo Taretto que está em cartaz há 13 semanas em Salvador, o infinito é Buenos Aires. As paralelas, o casal que vagueia, cada um solitário, pela cidade. E a cadelinha Zuzu, deixada com o rapaz por uma antiga namorada que foi passar uns tempos nos Estados Unidos e por lá ficou, simboliza o laço entre os dois.

Martín (Javier Drolas) é web designer. Um ermitão na selva, a grande cidade. Se sai do apartamento, vai andando: não pega ônibus, táxi, metrô, muito menos avião. Mariana (Pilar Lopez de Ayala) é uma arquiteta que perdeu o namorado e trabalha como vitrinista. Uma alma que tem medo de elevador e não perde em manias e fobias para o rapaz. Os dois moram pertinho, mas seguem cada um a sua maneira, acreditamos, feitos um para o outro, mas com poucas chances de se encontrar.

Medianeras, na Argentina, são aquelas paredes laterais cegas dos prédios, que afastam as pessoas por conta da privacidade. No Brasil, nas casas, são chamadas de oitões. Pois é quando cada um deles, Martín e Mariana, resolve abrir janela na parede cega, sem se dar conta que estão frente a frente, que o milagre acontece. Mas antes que as barreiras físicas sejam transpostas nesse filme que se ergue sobre nós como um monumento consagrado à modernidade, às retas e às soluções arquitetônicas, Gustavo Taretto já nos havia feito um brinde ao bom gosto cinematográfico.

Lembram-se que Martín precisou de uma cuidadora para ficar com o animal enquanto ele ia fazer alguma coisa? A mulher, Ana (Inés Efron), que chega com correntes segurando feras, pergunta logo se o rapaz é gay, porque ele está com aquele cachorrinho tão fru-fru. Dali para a cama é um pulo. Mas Martin e a garota avançam pouco em intimidade, do mesmo modo como não há nada com nada na junção daquele tanto de cachorros da cuidadora com a cadelinha Zuzu.

Uma cena básica, rápida, definidora do talento de Taretto, é quando Martín e Ana estão, os dois, conversando, sentados em um banco de praça, enquanto os cachorros ficam presos em uma árvore. E Zuzu, lá, solitária, como numa premonição, é a mesma que, ao final, na rua com o dono, levanta e suspende as patas, alegre, ao ver Mariana que acaba de perder a fobia e descer correndo de elevador para encontrar Martín. É aí que as retas, literalmente, se encontram.