Duas feiras e o cinema em Água de Meninos

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Antonio Pitanga, ator de A Grande Feira e Sol Sobre a Lama, em Água de Meninos - A Feira do Cinema Novo

O filme de Fabíola Aquino volta a ser exibido na Sala Walter da Silveira nesta quarta-feira (29/8), às 19 horas, encerrando o projeto Quartas Baianas do mês de agosto. O comentário abaixo foi postado no dia 11 de junho, por ocasião do lançamento, sob o título “Duas épocas, duas feiras e o cinema baiano percorrendo o documentário Água de Meninos“.

Atualizada em 29/07/2012

Água de Meninos – A Feira do Cinema Novo, de Fabíola Aquino, traz de volta não apenas a história da maior feira a céu aberto da Bahia, que pegou fogo em 1964, como amplia o registro para se tornar uma reportagem sobre as perspectivas em torno das obras realizadas, hoje, na feira que a sucedeu, São Joaquim.

Trata-se um documentário de linha clássica. Em seus 52 minutos de duração, retoma dois filmes do Ciclo Baiano de Cinema que, refletindo as inquiteções da época, profetizaram a destruição que enfim acabou ocorrendo em setembro daquele ano, deixando 1.800 barraqueiros a ver navios.

As imagens de Sol Sobre a Lama (1963), de Alex Viany, e A Grande Feira (1962), de Roberto Pires, percorrem o filme inteiro. Ao mesmo tempo que contrastam, costuram a identidade entre as duas feiras, tendo como fio condutor vários depoimentos.

Assista ao trailer do filme.

Sol Sobre a Lama foi uma espécie de resposta de seu produtor, Palma Neto, a A Grande Feira. Ele achava que o filme anterior não deu o tratamento adequado ao tema. Em sua história, ganhavam voz prostitutas, feirantes, saveiristas e demais trabalhadores que compunham os tipos da feira, retratados, também, com muita dignidade, no filme de Pires.

Destacam-se, entre os depoentes do documentário, o ator Antônio Pitanga, que participou dos dois filmes (então conhecido como Antonio Sampaio), e a atriz Gessy Gesse (de Sol Sob a Lama). Também o ator Nilson Mendes e o cantor Mateus Aleluia, além de um dos produtores do filme de Viany (juntamente com Palma Neto), Álvaro Queiroz.

Ainda depoimentos de barraqueiros, suas expectativas, a interferência de estudiosos sobre a preservação da identidade local e a versão oficial sobre as obras realizadas hoje. A impressão que fica é a de uma itinerância pelos diferentes boxes de cheiros e sabores em tempos distintos, de Água de Meninos e de São Joaquim.

“A Feira de Água de Meninos vai acabar”, ressoa a voz de Cuíca de Santo Amaro no início e no fim de A Grande Feira, em vaticínio repetido no documentário de Fabíola Aquino, que também constrói círculos, com habilidade, em torno das épocas e das feiras.