Desencanto verde e amarelo

Produção dirigida por Marília Hughes e Cláudio Marques estreia depois de circular por 34 festivais em 14 países

Depois da Chuva - pontocedecinema.blog.br

Depois da Chuva é um filme de fundo político sobre a desilusão da juventude Foto: Agnes Cajaíba/ Dvulgção

Uma viagem aos anos 80 do século passado para encontrar um grupo vivendo em Salvador sob os ventos da abertura política no Brasil. Depois da Chuva, primeiro longa de Cláudio Marques e Marília Hughes, que estreia nesta quinta-feira em seis capitais, concentra-se em 1984,  período imediatamente anterior à morte do presidente Tancredo Neves, eleito pelo voto indireto de um colegiado,  e à posse do vice, José Sarney.

É nesse contexto de um país que se despedia de uma ditadura que se apresentam um rapaz com suas inquietações – Caio, aos 16 anos de idade, vivido por Pedro Maia – e os companheiros: a garota Fernanda, interpretada por Sophia Corral, uma colega com quem fará par romântico, e o casal Tales (Talis Castro) e Sara (Paula Carneiro Dias), que pilotam uma rádio pirata e roubam a faixa do programa A Hora do Brasil.

Eles estão em meio a uma discussão sobre as eleições para o grêmio estudantil da escola. Vivem um ritual de passagem, alguns em plena adolescência, outros já à porta da idade adulta.  Um período intenso para quem ainda não havia chegado aos 20 anos deidade e se encontrava no vazio ao olhar para o futuro e ver que o cenário era o mesmo. Depois da Chuva é um filme de formação.

“Em um momento, Caio escreve demencracia, em vez de democracia, em uma redação na escola”, afirma Marília. “Eles destoam daquele momento de euforia (as eleições indiretas trouxeram de volta muitas caras ligadas ao regime militar) e já são críticos em relação a isso”, diz, ao falar sobre a aura que cerca aquele grupo. “A gente fala assim da desilusão da juventude, que de uma maneira mais ampla tem esse fundo político”, diz.

Prêmios
Orçado em R$ 1,5 milhão, o filme já passou por 14 países, foi exibido em 34 festivais, lançado na Argentina, recebeu os prêmios de  melhor roteiro, ator (Pedro Maia) e trilha sonora em Brasília e foi escolhido como filme estrangeiro no Harlem International Film Festival de Nova York. Tem novos convites para participar de festivais na Europa e na  Ásia, em países como Dinamarca, França (onde estreou com exibição em Cannes) e na Coreia do
Sul.

Mas Marília e Cláudio sabem das dificuldades de lançar um filme. Por isso apostaram nas redes sociais, além da visibilidade que os festivais e as pré-estreias propiciam, e confiam na sensibilidade do público, “que tem sido carinhoso em relação ao trabalho dos atores e ao naturalismo do filme”, fala Marília.

“O trabalho com o ator é o coração do filme”, diz Cláudio. “Quando pensávamos na imagem de Depois da Chuva não ficávamos nada satisfeitos ao pensar no formato digital”, completa, ao explicar a opção pelo 16mm. Ele diz que aventou até mesmo a possibilidade de radicalizar, usando o VHS ou U-Matic da época. “Conversando com o fotógrafo (Ivo Lopes Araújo) vimos uma maneira que incomodaria pouco os atores – a sensibilidade do 16mm, que também daria a granulação importante para chegar à época em que se passa a história de Depois da Chuva”.

A intenção era deixá-los confortáveis, sem tanta luz,  e ganhar em naturalidade, e não fazer um filme barroco, grandiloquente, diz o diretor.  “A questão da época foi outra grande preocupação em todo o processo”, afirma: “Você não fica questionando se  está naquela período ou não. A gente já consegue colocar o espectador naquele
tempo”.

Marília e Cláudio vêm do que se pode chamar de uma escola, construindo uma base entre os cineastas baianos. Cada um a sua maneira, inicialmente, para depois estabelecer um vínculo mais efetivo, a partir de O Guarani, prosseguindo com curtas como Nego Fugido, Carreto, Sala de Milagres e Desterro.  Nem bem lançaram Depois da Chuva e já estão com três novos longas engatilhados, vencedores de editais, para realizar até o próximo ano: A Cidade do Futuro, Guerra do Algodão e Sobradinho.