Cuíca de Santo Amaro, o filme, mostra os dois lados da moeda na trajetória do cordelista baiano

O longa baiano Cuíca de Santo Amaro, de Josias Pires e Joel de Almeida, volta a ser exibido em Salvador nesta terça-feira (19.6), às 18h30, na Praça Municipal, pelo projeto Cinema na Praça, da Fundação Gregório de Mattos. A programação comemora o aniversário de nascimento do poeta popular José Gomes (19.3.1907-21.1.1964), que, segundo consta, ficou conhecido como Cuíca de Santo Amaro por tirar o som da cuíca no violão e ser sempre visto, além de Salvador, na cidade do Recôncavo baiano.

O documentário, que ganhou pré-estreia em Salvador em novembro de 2012, no VIII CineFuturo, foi exibido antes no É Tudo Verdade (Rio e São Paulo), na Venezuela e em Angola e segue carreira de apresentações em mostras e festivais até chegar à exibição comercial, para onde já está prometido, mas encontra dificuldades financeiras. Há dois meses, sua veia popular foi novamente testada, com êxito, na 16a. Mostra de Cinema de Tiradentes (MG), onde foi exibido em praça pública lotada.

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Momento antológico do cordelista em A Grande Feira, contemplado no filme de Joel Almeida e Josias Pires

Com 74 minutos de duração, o documentário é um mergulho na vida do poeta e trovador, que circulava pelo centro de Salvador declamando e anunciando a plenos pulmões seus panfletos e livrinhos de cordel. Era conhecido nos quatro cantos da cidade. Uma espécie de Gregório de Mattos redivivo, fazia uma radiografia da velha Bahia das décadas de 40, 50 e início dos anos 60 do século passado.

Escândalos sexuais, crimes passionais, querelas políticas, custo de vida, desavenças pessoais – nada escapava à veia satírica e irreverente do maior cronista popular que a Bahia já teve, que, com providenciais óculos escuros, terno surrado e voz estridente e gutural, gritava seus versos aos ventos.

“A grande feira d’Água de Meninos vai se acabar. Vai acabar a grande feira. Leiam com detalhes. A grande feira de Água de Meninos, senhores, vai se acabar”, dizia Cuíca na abertura de A Grande Feira, longa-metragem de ficção realizado por Roberto Pires em 1961, que, com uma narrativa circular, fechada pelo próprio cordelista baiano, na parte baixa do Elevador Lacerda, dava voz altiva ao que já se comentava na época.

A maior feira popular da Bahia pegaria fogo em 1963, confirmando o vaticínio: “Leiam com detalhes a extinção da Feira de Água de Meninos. Cinco cruzeiros, meus amigos. A grande feira vai se acabar. Devorada pelos tubarões. Os tubarões vão acabar com a feira. Milhares de famílias condenadas ao relento. Centenas de saveiros sem porto. Feirantes explorados. Um grande escândalo”.

São as únicas imagens em movimento que restaram do cordelista e estão devidamente contempladas no documentário de Joel e Josias, que trabalham a Salvador da época inserindo o cinebiografado no geografia do lugar por meio de imagens de filmes, recortes, ilustrações, animações e entrevistas.

Embora clássico, apoiado em boa parte por entrevistas, o documentário é ágil e bem-humorado, como o seu personagem, Cuíca de Santo Amaro. Segue uma linha irreverente, por não se deixar contaminar pela tradição sisuda do gênero. Há um problema, a falta de um mergulho substancial, com material mais abrangente, e contundente, na vida pessoal de José Gomes, familiar, no bairro de Quintas, onde morava.

Mas é preciso dizer que o documentário não é um filme de fãs, apenas de reverência à criatura. Joel Almeida e Josias Pires não poupam o próprio Cuíca, que é mostrado, integralmente, em sua trajetória polêmica. Entenda-se: não é somente endeusado, o cara que já foi personagem de Jorge Amado, Dias Gomes e Anselmo Duarte..

Cuíca é revisto também em seu lado de extorsor, que costumava calar diante de compensações financeiras arrancadas de pessoas ameaçadas de ter a vida exposta em grande escândalo. Gente que viveu a época, estudiosos e pessoas com quem o poeta alimentou desavenças falam a cada instante das duas faces da moeda em Cuíca de Santo Amaro. Para o bem e para o mal.