Crepuscular, filme do cineasta chileno Pablo Larraín, No sinaliza o fim de uma época

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Gael García Bernal faz o publicitário René Saavedra, que comanda a campanha do 'no' ao presidente Pinochet

O chileno No, de Pablo Larraín, ainda em cartaz em Salvador, é realmente provocante. Um filme como pouco se vê hoje em dia. Retoma halo do cinema político dos anos 60/70, sobretudo o italiano e alguma coisa feita pelo grego Costa-Gavras.

Não faria se fossecolocado entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. No está entre os pré-indicados, ao lado de Amour (Áustria), Witch War (Canadá), Um Caso Real (Dinamarca), Intocáveis (França), The Depp (Islândia), Kon-Tiki (Noruega), Beyond the Hills (Romênia) e Sister (Suíça). A lista final sai nesta quinta-feira.

Desses, devem ser escolhidos cinco candidatos, lembrando que o nosso O Palhaço, de Selton Mello, caiu fora de uma lista de dezenas de pré-selecionados, no final do ano.

Mas o diabo é que No está concorrendo com títulos de prestígio como Amour, o austríaco que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, e Intocáveis, o maior sucesso do cinema francês.

O filme de Larraín trata da época em que o ditador Augusto Pinochet, depois de 15 anos de dominação sangrenta, convocou um plebiscito para que a população chilena escolhesse se o manteria no poder. Gael García Bernal faz o publicitário René Saavedra, chamado para comandar a campanha televisisa do ‘no’ do título.

Trata-se de um filme que constrói uma estabilidade no campo narrativo com uma mise-en- scène particular, sem firulas, moldando sua intensidade. Não seria exagero lembrar dos thrillers reflexivos do grande cineasta norte-americano Sidney Lumet ao se caminhar junto do publicitário composto por Bernal.

A contraposição entre a sisudez esperada de uma campanha desse naipe e a aposta do profissional por uma incursão menos rígida, amparada nas leis da procura ditada por um mercado competitivo, marcada pelo humor e, como é pontuado, pela alegria, é o que de melhor se pode tirar do filme.

A fotografia, a ambiência, excetuando-se as imagens de arquivo, deveria amparar isso, essa aposta. O que se vê no filme, entretanto, é a opção por uma imagem estourada, borrenta, assumida pelo próprio Larraín como proposital em alusão ao meio publicitário e à época que se passa o filme.

Acho que a opção não foi ideal. E nem mesmo naquele tempo as imagens eram tão amarrotadas assim. O u-matic era escolhido ao VHS, pelas televisões, justamente para se evitar isso. Em todo caso, há que se fazer concessão, vendo-o como um filme crepuscular, que sinaliza não apenas a queda de Pinochet, mas o final de uma época. Um bom filme, aliás.