Copacabana dribla clichês com Isabelle Huppert, uma atriz extraordinária

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Lolita Chammah e Isabelle Huppert em Copacabana, de Marc Fitoussi: fluência entre drama e comédia

Posto novamente o comentário que fiz sobre Copacabana na ocasião em que foi exibido no Festival Varilux de Cinema. O filme, que entrou em cartaz em Salvador ontem, é interessante, mas a principal atração é Isabelle Huppert, em mais um grande momento, no papel de uma mulher de meia-idade instável, meio que deslocada do mundo, que consegue dar a volta por cima. Vejam.

A ideia de uma atriz que carregue um filme em quase sua totalidade está presente de cara em Copacabana, que, além de Isabelle Huppert no elenco, traz mais um chamariz para os brasileiros: a personagem principal de Marc Fitoussi adora o Brasil, é fascinada pela música brasileira e não perde tempo em sonhar com o país que ostenta a praia mais famosa do mundo.

Huppert interpreta Babou, uma jovem senhora que parece um tanto quanto louca, pouco adaptada à vida cotidiana. Ela está desempregada e se queixa mais da dificuldade de relacionamento com a filha, Esmeralda (Lolita Chammah, filha da própria Huppert na vida real), que resolve casar e não convidar a mãe para a festa. Baboo é tão deslocada que não pensa duas vezes em procurar uma amiga que não quer mais vê-la para pedir emprestado o carro que lhe possibilitará trabalhar em negócios imobiliários um tanto quanto escusos na região balneária de Ostende.

É esta sequência, quando Babou procura alguém que não quer mais vê-la – que está cansada de suas armações e recebe ela como alguém desprezível –, a melhor do filme, por sua qualidade insólita, com diálogos precisos e bem-humorados, porque também ali se define o caráter da personagem e sua determinação: ela consegue o que quer da amiga, vai para Ostende e não desiste, agora, além da ideia de visitar o país que tanto gosta, de dar um presente que realmente valha a pena para a filha que a rejeita.

É nesse momento que vemos que Copacabana, contando com uma atriz extraordinária, que sabe conduzir-se fluentemente entre o drama e a comédia, é um filme simples e permanecerá assim, com narrativa discreta. E que também tem algo a dizer, cujo diretor, Marc Fitoussi, com escritura própria, sem a intenção de ser necessariamente grande, planta-se diante de um roteiro que em qualquer mão estaria fadado a vomitar apenas um monte de clichês sobre a cultura e a música brasileira.

Aliás, os clichês estão ali, mas não lhe falta a companhia da graça e do humor, caráter definidor de algo a mais também naquela mulher, espécie de doce Cabíria composta por Isabelle Huppert, que tem um quê da personagem de Federico Fellini inspirada no Carlitos de Charles Chaplin. Babou é temperamental, inconstante, uma mulher difícil, mas ela se move em torno da generosidade, da emoção e do instantâneo.

É isso que a conduzirá, quase apenas em um registro, ao sucesso fácil no emprego e ao fracasso da demissão. É isso que a conduzirá também a apostar tudo o que tem e realmente moldar seu sonho e dar sentido à vida neste filme que é bom e só, como a personagem: trabalha firme contra suas próprias limitações e, no final, consegue agradar. Não precisa mais.