Conto de fadas ao avesso, Blue Jasmine navega em um mundo de futilidades

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Cate Blanchett, no papel da glamourosa Jasmine, é um dos destaques do novo filme de Woody Allen

Para quem ainda não viu: Blue Jasmine, de Woody Allen, é um filme imperdível. Como sempre, um Woody Allen. Digo isso sem medo de parecer viúva de um cineasta esgotado ou de estar comprando um vestido roto em uma grife obsoleta.

Um dos maiores cineastas vivos dos Estados Unidos, Allen é prolífico. Faz um filme atrás do outro. Muitos não perdoam quem está sempre presente, atuante. Acho que se enfadam, não é? E aí o erro de considerar menores títulos como Para Roma Com Amor, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo.

Na realidade, são todos, além de Meia-Noite em Paris, filmes muito bons. Alguns melhores, outros jamais desprezíveis, em que o cineasta norte-americano continua imprimindo sua capacidade de destilar humor corrosivo, a partir da observação de um mundo de futilidades.

Desta vez temos a deslumbrante e falida Jasmine, em interpretação magnífica de Cate Blanchett, que perdeu todo o dinheiro e o marido desonesto, vivido por Alec Baldwin, que se matou na cadeia depois de fazer tantas falcatruas.

Mas ela não conseguiu ainda descer do salto e se despojar da vida de aparências que a faz ostentar bolsas e malas Louis Vuitton e viajar na primeira classe de um voo de Nova Iorque a São Francisco.

Jasmine chega a São Francisco para morar com a irmã pobre e nada sofisticada, Ginger, vivida por Sally Hawkins, com seus dois filhos bagunceiros e um namorado brutamontes.

Marcante na personalidade e nas ações de Jasmine, um desvio comportamental gravíssimo: ela fala sozinha na rua, conta a história de sua vida (que lhe convém) a qualquer um e toma um calmante atrás do outro, ao mesmo tempo em que bebe vodka e Martini.

Parece Norma Desmond, a anti-heroína trágica de Billy Wilder, atriz do cinema hollywoodiano que, embora decadente, ainda vive sob o manto de uma falsa notoriedade, em Crepúsculo dos Deuses, ou a Blanche DuBois de Um Bonde Chamado Desejo, um dos ícones da dramaturgia norte-americana, que só faz acentuar sua decrepitude ao tentar realçar a virtude diante do cunhado machista e arrogante Stanley Kowalski.

Nos últimos anos Woody Allen dirigiu apenas um filme nos Estados Unidos, o brilhante Tudo Pode Dar Certo, em que receita doses de loucura e generosidade como antídoto para o mau humor dominante. O filme se passa em Nova York.

No final, apesar de tanto desatino, aquele resto de esperança, em Tudo Pode Dar Certo, como há esperança para todas as heroínas ingênuas de Allen, menos para Jasmine:

De Cecília, a mulher de um brutamontes que se vê carregada para dentro de uma tela de cinema, no antigo A Rosa Púrpura do Cairo, à infeliz e abandonada Helena, que vê se concretizar todas as boas previsões de uma vidente charlatã no recente Você Vai Encontrar o Homem dos seus Sonhos.

Não obstante um cineasta declaradamente influenciado por nomes como Ingmar Bergman, Federico Fellini e Alfred Hitchcock, Woody Allen aqui é pura auto-referência, tomando como ponto de sustentação alguns dos conceitos morais que norteiam sua obra desde o princípio, quase na totalidade. Parece que Allen vê Jasmine com alguma ternura, mas, ainda mais ácido, ele é muito menos condescendente com ela do que com todas as outras.

Porque o filme, um conto de fadas ao avesso, trata de uma figura inserida em um contexto de crise pessoal e ao mesmo tempo global em um mundo de especulações financeiras e maldade que Allen detesta. E representado pela arrogância capitalista norte-americana da qual, não se sabe ainda se Jasmine, louca e sentada sozinha em um banco de praça, irá escapar.