Clint Eastwood desvenda sentimento homossexual

J. Edgar - pontocedecinema.blog.br

Leonardo DiCaprio em filme de Clint Eastwood, no papel de J. Edgar Hoover, chefe do FBI por quase 50 anos

Quando se pensa que o único caminho é demonizar John Edgar Hoover, Clint Eastwood diz não. J. Edgar, o filme, é um providencial mergulho na vida íntima do chefe do FBI que permaneceu quase 50 anos no cargo e tornou-se um dos homens mais poderosos e temidos dos Estados Unidos até a morte, em 1972.

Há uma ideia de que muito do que se passa na tela é suposição. Digamos, uma cinebiografia não autorizada. Mas vejamos o filme.

Fala-se sempre de Freud e de duas sequências cabais de J. Edgar. O momento em que a mãe do personagem, interpretado por Leonardo DiCaprio, Anne Marie Hoover (Judy Dench), diz a ele que prefere um filho morto a um filho homossexual, e quando, logo depois que ela morre, ele coloca o seu vestido e o colar que em seguida quebra em gesto simbólico de rompimento de amarras.

E a ideia é mesmo condenar o filme de Eastwood, realizado a partir do roteiro de Dustin Lance Black (que também escreveu Milk – A Voz da Igualdade, cinebiografia de Harvey Milk, primeiro gay assumido a exercer um cargo público de relevância, nos Estados Unidos).

Vê-se, ali, uma suposta simplificação – a ideia de que filhos de mãe dominadora tornam-se, necessariamente, homossexuais -, porque é claro que gays também têm irmãos – e heterossexuais criados no mesmo ambiente, digamos, de pai ausente.

Mas não acredito que esse seja o viés necessário de J. Edgar. Diretor de obras-primas como Os Imperdoáveis e As Pontes de Madison, Eastwood não cairia no esparro.

Na sequência chave do vestido e do colar, não existe sequer o indício do glamour do fato essencialmente gay. Porque ali se mostra, antes mesmo de um comportamento exclusivo do homossexual, a representação de uma uma natureza libertada. E é sabido que a roupa feminina não exerce fascínio apenas sobre os gays.

Mas J. Edgar é gay. E é isso que nos interessa agora. As pedras do colar caem pesadas, são como anéis de uma corrente que se parte.

Aqui, Clint Eastwood desvenda o sentimento de um homossexual diante da rejeição que se funda em casa, na família, e depois no convívio social. Porque há anos, todos sabem, que Edgar vive com o seu companheiro e homem de confiança, Clyde Tolson, interpretado por Armie Hammer, uma relação que é mais do que uma simples amizade.

Edgar Hoover, a despeito de todo o perfil forjado por Eastwood de um homem em seu exercício de poder inglório – o que aproxima, em muitos sentidos, o personagem do Charles Foster Kane de Orson Welles -, é isso e um pouco mais.

Ele vence a chantagem da mãe que, mesmo sabendo de sua natureza sexual, não esconde que preferia vê-lo morto. Mas é ele quem agora a vê morta. Clint Eastwood, um heterossexual, como o Ang Lee de O Segredo de Brokeback Mountain, faz mais um filme brilhante.