Cleo das 5 às 7, uma obra-prima de leveza e sensibilidade ganha exibição na Sala Walter da Silveira

Cléo das 5 às 7 - pontocedecinema.blog.br

Corinne Marchand é Cléo, que faz compras, canta, anda pelas ruas, enquanto aguarda resultado de um exame

O crítico de cinema Claude Beylie, em seu indispensável livro As Obras-primas do Cinema, publicado no Brasil pela Martins Fontes, em 1991, escreveu sobre Cléo das 5 às 7 (Cléo de 5 à 7), filme realizado por Agnès Varda em 1961:

“Com Cléo das 5 às 7, ela se afirma como uma das autoras mais pessoais da sua geração, apimentando com discreta reivindicação feminista uma narrativa sensível, um estilo vivo e cintilante, uma escrita ao mesmo tempo leve e comedida”. (…) Agnès Varda acrescenta uma segmentação temporal minuciosa, apartes visuais, o recurso ao comentário interior, uma apreensão direta do mais ínfimo ‘sinal’ ambiente, que conferem à obra o aspecto de um diário íntimo (…)”.

Cléo de 5 à 7, com música de Michel Legrand, contando no elenco com Corinne Marchand (Florence/Cleo) e Antoine Bourseiller (Antoine), será exibido a partir desta sexta-feira (20), em sessão única, às 16 horas, na Sala Walter da Silveira, até 26/7. O filme dura o tempo real de uma espera, em que uma artista com suspeita de câncer, enquanto aguarda o momento de pegar o resultado do exame, percorre um caminho de encanto e poesia pelas ruas da cidade, como “uma busca espiritual”, nas palavras de Beylie.

Assista a um trecho de Cléo das 5 às 7.

Agnès Varda, diretora de outro filme dos anos 1960 que não nos sai da memória, As Duas Faces da Felicidade (1965), nasceu em Bruxelas em 30 de maio de 1928; tem agora, portanto, 84 anos de idade. Mas continua em atividade. Aliás, criativa e inovadora como nunca. Demonstrou isso em As Praias de Agnès, curioso auto-retrato de 110 minutos que dirigiu em 1988, exibido em Salvador no ano passado.

Exercício sobretudo documental, em As Praias de Agnès a diretora radicada na França viaja às suas origens, na Bélgica, para, a partir dali, construir um minucioso painel sobre sua trajetória, que inclui a saída ainda em criança de seu país e a convivência com grandes artistas do século passado, fazendo também do filme um inventário sobre a nouvelle vague, o momento único, renovador, da cinematografia francesa.

Aliás, que outro filme, além de Cléo, transitando em beleza e ludicidade à flor da pele, em sublime e poética trajetória pelas ruas e parques de Paris, poderá nos dar a noção exata do ato de liberdade que foi a nouvelle vague francesa? Muitos, por sinal. Entre eles Acossado, o mais famoso, de Godard. Mas Cléo das 5 às 7 denota um sinal de delicadeza incomum na escritura de uma mulher que em 1954 dirigiu La Pointe Courte, de 1954, apontado como um dos faróis daquele movimento francês.

Até os anos 80, Varda era a diretora mais famosa do cinema francês, apesar de uma certa obscuridade diante da carreira de sucesso de seu marido, Jacques Demy, o diretor de Lola, A Flor Proibida (1960), Os Guarda Chuvas do Amor (64), Duas Garotas Românticas (67) e Pele de Asno (71), que morreu em 1990 e ganhou momento especial, dos mais singulares, em As Praias de Agnès.

Varda, entretanto, apesar de uma trajetória de militância que a afastou dos holofotes, jamais se manteve totalmente à sombra, como demonstra não apenas As Praias…, mas filmes como L’Une Chant, l’Autre Pas (Duas Mulheres, Dois Destinos, 1976) e Sans Toit Ni Loin (Sem Teto Sem Lei, 1985), com Sandrine Bonnaire no papel de uma andarilha que tem a história de vida reconstituída a partir de sua morte em consequência de frio no rigoroso inverno francês.

Pelo menos Cleo das 5 às 7, As Duas Faces da Felicidade e Sem Teto Sem Lei já foram lançados em DVD. Os filmes podem ser encontrados na Vintage Videos.

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