Claude Chabrol tentou libertar Sylvia Kristel do estigma Emmanuelle com Alice ou A Última Fuga

Alice ou A Última Fuga - pontocedecinema.blog.br

Sylvia Kristel em Alice. A estrela de Emmanuelle morreu de câncer esta semana aos 60 anos de idade

A atriz holandesa Sylvia Kristel, que morreu na madrugada de quinta-feira, será eternamente lembrada pelo filme Emmanuelle, a Verdadeira, pornô soft pouco instigante e superficial dirigido pelo francês Justin Jaeckin em 1973, que a alçou a estrela internacional.

Mas seu melhor filme é Alice ou A Última Fuga (Alice ou La Dernière Fugue, 1977), de Claude Chabrol, em que faz Alice Carol, uma mulher que abandona o marido e passa a viver um mundo de esquisitices, em uma fábula moral livremente inspirada em Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol.

Realizado no auge do movimento feminista, podemos ter em conta Alice ou A Última Fuga como um filme que reflete o espírito da época. Mas Chabrol vai além, infiltrando-se por zonas abissais, labirintos de pensamentos em uma leitura singular da alma feminina, da atriz e da personagem.

Lançado em Salvador no extinto Cine Capri, no final dos anos 70, ainda hoje me lembro da sequência final, do carro batido em uma árvore e do ciclista que passa indiferente, depois de Alice, com roupa leve e descalça, deslizar por uma escadaria e sumir no vão escuro de uma mansão.

Htchcockiano contumaz, o cineasta francês, consagrado sobretudo por Nas Garras do Vício (1958) e O Açougueiro (1970), mimetiza o mestre do suspense de forma singular, podendo-se associar o desabrochar de Alice Carol ao ato definitivo que conduzirá Marion Crane (Janet Leigh) ao sacrifício em Psicose (1960).

Crime e castigo, pecado e punição em Chabrol como é praxe em Alfred Hitchcock?

Barroco e sinuoso como nunca, o cineasta francês parecia antever o estigma Emmanuelle em Sylvia Kristel e, com Alice, empreender uma tentativa de libertação desse pássaro na gaiola. Mas a fuga mostrou-se impossível. Como no final do filme. Como em Hitchcock.