Cinema coreano ganha espaço em Salvador com a exibição de A Visitante Francesa e Pietá

A Visitante Francesa - pontocedecinema.blog.br

A Visitante Francesa, de Hong Sang-soo, com Isabelle Huppert nop elenco, em cartaz há três semanas

Não é de hoje que o cinema sul-coreano encanta e é lembrado como integrante de uma espécie de nova onda daquele país.

Um sem-número de diretores, como Park Chan-wook, autor da Trilogia da Vingança, Bong Joon-ho (O Hospedeiro), Kim Ki-Duk (A Casa Vazia), Lee Chang-dong (Poesia) e Hong Sang-soo, de Hahaha, estão aí para comprovar: a onda não é passageira.

Eles colecionam elogios em diversos festivais do mundo, ao longo de mais de uma década. Mas parece que seus ecos somente agora soam entre um público um pouco mais abrangente no Brasil. Este ano, três filmes sul-coreanos já estrearam em Salvador.

Ainda que se possa lamentar o pouco tempo em cartaz de Hahaha, torcemos para que A Visitante Francesa, também de Hong Sang-soo, e Pietá, de Kim Ki-Duk, que entraram no último fim de semana, tenham vida um pouco mais longa nas telas da cidade.

A Visitante Francesa, que conta com Isabelle Huppert no elenco, participou da mostra competitiva do Festival de Cannes do ano passado. Pietá ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza. O primeiro é doce, leve e afável; o segundo, violento e implacável.

A Visitante Francesa mostra Isabelle Huppert interpretando personagens diferentes, embora com o mesmo nome, Anne, em três histórias passadas na Coreia. As narrativas têm um elo: uma estudante de cinema, que no início do filme vemos conversando com uma mulher mais velha sobre os motivos que fizeram um parente cheio de dívidas cometer suicídio, levando-as à ruína.

A garota passa então a escrever um roteiro de cinema com rabiscos, ideias pouco desenvolvidas que nos introduzem na vida daquelas três mulheres, em histórias que compartilham o mesmo espaço – uma praia coreana – e muitas situações parecidas, quando não repetidas.

A primeira Anne é uma mulher de cinema que está em visita a um colega e sua esposa. A segunda, aproveita a ausência do marido para encontrar com o amante coreano. E a terceira foi trocada pelo marido por uma coreana.

São três histórias singelas, mas que confrontam a percepção e o olhar do espectador com situações inusitadas. Por exemplo: em todas elas há um salva-vidas que paquera Anne; ela também está sempre procurando um farol; e sempre pede um guarda-chuva emprestado a uma moça.

Tudo contado com beleza e simplicidade quase indescritíveis, que nos remetem ao cinema de invenção que ganhou o mundo a partir dos anos 50 do século passado – particularmente, a nouvelle vague francesa.

Pietá está em um outro patamar. Violento, duro, Kim Ki-duk faz um cinema de crueldade. Ele é seco. E se torna mais grave ainda porque mexe com um dos grandes símbolos de compaixão cultivados pela cultura ocidental – a figura da Virgem Maria segurando no colo o corpo do Cristo morto.

O próprio Kim Ki-duk disse, no Festival de Veneza do ano passado, que teve a ideia do filme ao ver a Pietá, de Michelangelo, no Vaticano.

Mas o que domina mesmo é a falta de compaixão, materializada na figura de um rapaz que cobra dívidas de agiotagem mutilando os devedores para receber o dinheiro do seguro.
Nesse meio tempo, aparece aquela que deveria ser a piedosa do filme, uma mulher que se diz mãe do rapaz e que o teria abandonado quando criança.

Imprevisível, Pietá provoca quase um sentimento de dor insuportável. Parte da crítica o considera artificial e gratuito. Eu, não: acredito que é um dos bons títulos do ano. Doloroso, mas necessário.