Cineasta espanhol Carlos Saura investiga cultura argentina em filme sutil e sofisticado

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Documentário é um ensaio sobre a música e a dança tradicionais daquele país Foto: Divulgação

Um filme de Carlos Saura, hoje, é praticamente uma raridade, mas à sua carreira, prolífica,  se  soma agora Argentina (no original, Zonda: Folclore Argentino). Espécie de documentário-ensaio, o diretor espanhol empreende uma evolução narrativa que contempla a tradição da música e da dança daquele país em um único espaço.

O resultado pode parecer a princípio nada animador para o espectador brasileiro, não acostumado ao folclore argentino, mas quem se deixar levar vai ver que tem a ganhar assistindo ao filme todo produzido em um grande galpão do bairro La Boca, um dos mais conhecidos de Buenos Aires.

Esqueçam por ora o tango, que, aliás, já foi objeto de estudo de Saura em outro filme de 1998. Aqui, em Argentina, ritmos como vidala, zamba, chamamé, carnavalito e malambo são investigados em um exercício de sofisticação que compreende jogos de luzes, telas transparentes, espelhos, enquadramentos e deslocamentos sutis de câmera.

São movimentos de extrema sensualidade, detalhes de corpos e instrumentos que povoam Argentina, um filme que trabalha com sutileza a sensibilidade do espectador, remetendo aos mais instigantes trabalhos de Saura nesta vertente, como se fosse um extrato das manifestações culturais da Argentina.

Alguns dos melhores momentos são as homenagens a Mercedes Sosa e Atahualpa Yupanqui, dois dos maiores artistas argentinos. Ele, dispensada a necessidade de apresentar a fenomenal Mercedes Sosa, é apontado como o mais importante músico do folclore daquele país.

Trilogia flamenca
A visão de Argentina remete ao Saura dos anos 1980, quando fez a famosa trilogia flamenca formada por Bodas de Sangue (1981), Carmen (1983) e Amor Bruxo (1986). E a tempos menos remotos como os de Sevillanas (1991), dos próprios Flamenco (1995) e Tango e de Fados (2007), sem contar as incursões, em registros diversos, pelos meandros da tradição ibérica e latino-americana.

Hoje Saura é um tanto quanto esnobado. E há uma certa razão nisso, porque o seu melhor momento se deu no apagar das luzes da ditadura franquista, quando, considerado uma espécie de herdeiro natural de Luis Buñuel, fez filmes memoráveis como Ana e os Lobos (1972), Cría Cuervos (1975) e Mamãe Faz Cem Anos (1979).

Crítico ferrenho do regime duro do generalíssimo Francisco Franco, a arte de Saura era carregada por elementos do surrealismo, do realismo fantástico e impregnada de metáforas e simbolismos em confronto com a burguesia, a sociedade civil retrógrada e a ditadura instaurada com o término da Guerra Civil Espanhola,  em 1939.

Elisa, Vida Minha (1977), um oásis de ternura,  e Olhos Vendados (1978) são outros dois filmes importantes daquela fase que se foi esvaindo junto com o franquismo, a partir da morte do generalíssimo Franco, em 1975. Aí então surgiu Pedro Almodóvar. Mas isso é outra história.