Cineasta do confronto entre extremos, filmes de Nagisa Oshima precisam de reavaliação

O Império dos Sentidos - pontocedecinema.blog.br

Eiko Matsuda e Tatsuya Fuji em O Império dos Sentidos (1976), um dos principais filmes do japonês Nagisa Oshima

Não dá para deixar de falar de Oshima, nem ser evasivo: O Império dos Sentidos (1976) foi mesmo o principal filme do mestre japonês Nagisa Oshima, que morreu em janeiro, em Kanagawa. E o mais impactual, não obstante o diretor de O Túmulo do Sol (1960) tenha feito tantos outros de extrema qualidade.

Digo extrema também porque a obra do cineasta japonês sempre esteve ancorada no paroxismo, em que as imagens pareciam escapar da tela, em seu sentido meramente estético, para calar fundo no público, estabelecendo assim o vínculo (de ruptura) com o social. Sobretudo quando se pensa neste filme que ainda hoje – e muito mais hipocritamente hoje, como o Salò de Pasolini – desconforto irá causar a quem vê-lo pela primeira vez.

É preciso lembrar, como exemplo, que no Brasil dos anos 80 o público do cinema pornô, já acostumado (e mesmo vibrando) com a dobradinha sexo e atrocidade, quase se firmou em levante, ao ver a inversão proposta por O Império dos Sentidos, com o macho se submetendo violentamente à fêmea. Lembro particularmente de uma sessão no antigo Glauber Rocha, para onde o filme foi levado depois de exibição durante semanas no Bristol, no Politeama.

Logo no início dos anos 60, ao cabo de seu quarto filme, Nagisa Oshima saiu em trilha independente, depois de romper com a tradicional produtora Shochiku, que se recusou a fazer a distribuição de Noite e Nevoeiro no Japão, filme sobre a luta estudantil contra o Tratado de Segurança Nipo-americano, inspirado em Nuit et Brouillar (Noite e Neblina, 1955), de Alain Resnais, que conta as atrocidades dos campos de concentração nazista.

Conteúdo político-social fortíssimo, atado a uma maneira particular de ver e filmar, faz de Nagisa Oshima, nascido em março de 1932, em Kioto, um osso duro no movimento em direção à comoção e enternecimento do público.

Basta ver o seu segundo filme, Juventude Desenfreada, de 1960, em que, me parece, estabelece com mais particularidade uma ponte com a nouvelle vague – movimento ao qual sempre foi associado, ele e outros cineastas do mundo, não apenas seus pares do Japão.

O casal de Juventude move-se, amoral, em processo de agonia existencial e indiferença, e ali só não há o sexo em camadas generosas que notabilizaria o Oshima do futuro, dos dois impérios – dos Sentidos e da Paixão. O Império da Paixão, feito logo em seguida ao dos Sentidos, outro filme fortíssimo, de uma carga erótica descomunal.

Mas há em Juventude uma forte ligação com o Godard de Acossado (1959) e sobretudo o Louis Malle de tantos filmes, no sentido de que os personagens do diretor de Os Amantes (1958) sempre trafegaram por uma linha inovadora de redefinição moral.

Diretor de Furyo – Em Nome da Honra (1983), Oshima colocou o britânico Tom Conti e o também japonês Takeshi Kitano em meio ao fogo que movia o capitão Yonoi e o major Jack ‘Strafer’ Celliers, interpretados por Ryuichi Sakamoto e David Bowie, em um campo de prisioneiros na ilha de Java, em 1942.

Voltaria a abordar a homossexualidade com sutileza em seu último filme, Tabu, realizado em 1999, três anos depois de sofrer uma hemorragia cerebral e 13 depois de dirigir um dos seus títulos menos prestigiados, Max, Mon Amour.

Max, Mon Amour, infelizmente desprezado, patrocina uma curiosa correlação com o cinema de Luis Buñuel, sobretudo, pela colaboração com o roteirista Jean-Claude Carrière, não sem razão o mesmo de O Discreto Charme da Burguesia e A Bela da Tarde, ao abordar a obsessão do marido ao se deparar com o relacionamento da mulher (Charlotte Rampling) com um macaco.

Impressionante, em Juventude Desenfreada, a sequência em que o homem contempla a mulher que acabara de fazer um aborto, enquanto outro casal – ela, a irmã mais velha da garota estendida na cama – conversa como se os quatro fossem os mesmos, indissociáveis, jovens e maduros do futuro e do passado, marcados em vida no imediato pós-guerra e anos depois.

Ao mesmo tempo que rejeita, a mais velha inveja a outra e, ao lado do ex-amante, um médico ‘fazedor de anjos’ hoje decadente em um consultório fétido, lembra como poderia ter sido o seu caminho e o do amante.

O filme é de 1960, não esqueçamos. Estamos no âmbito de uma revolução cinematográfica que inclui obras extremamente inovadoras sob todos aspectos. De Resnais, Bergman, Fellini, Antonioni, o próprio Godard, Truffaut, Malle, Cassavetes, dentre outros. Oshima entra nesse eixo.

O relacionamento da irmã mais nova com o amante, que explora uma mulher mais velha, é chocante. Há amor, não há afeição. Ou o contrário. Sexo e estupidez de mãos dadas. O caminho é delinquir. Ela pede carona, enquanto ele segue os carros para extorquir os motoristas, quando tentam alguma aproximação sexual com a garota.

Juventude remete ao menino de O Garoto Toshio (1969), que se joga contra os carros para então pedir indenização pelos danos ao corpo. Oshima abre fendas, expõe feridas. Fez um cinema admirável que precisa mais e mais de reavaliação.

Entre seus inúmeros momentos notáveis, é difícil saber qual o melhor, dentre tantos: O Enforcamento (1968), em que o fato narrado vem em mistura de documentário e ficção no trato insólito da circunstância que envolve um criminoso condenado à morte? Ou O Garoto Toshio (1969) da infância roubada, a quem já cabe a aplicação da lei, que tem o rito de passagem – o dele e do irmão mais novo – precipitado com o incentivo à extorsão?

Cineasta do confronto entre os extremos, da desmesura, seus filmes quase sempre se baseiam em fatos reais, vêm de uma notícia de jornal, uma crônica policial, uma tragédia como aquela ocorrida nos anos 30, da prostituta levada à cama pelo amante que se deixou submeter ao prazer e à morte em dias seguidos de sexo. Grande Oshima.